
c. 1500–c. 1556
em revisãoGonçalo Anes Bandarra
O sapateiro de Trancoso que trovou o Encoberto e semeou o mito.
Quem foi Bandarra? Um sapateiro de Trancoso que, no século XVI, pôs em verso a esperança de um rei oculto que havia de voltar. Gonçalo Anes Bandarra (c. 1500–c. 1556) não era teólogo nem cortesão: era um homem do ofício, que lia a Bíblia como um leigo devoto e a punha a falar da sua terra. Trancoso era então uma vila de comércio na Beira, com uma população cristã-nova numerosa, e foi nesse cruzamento de culturas e leituras da Escritura que o sapateiro aprendeu a ler o seu tempo em código profético.
As «Trovas» que compôs leem profecias antigas e anunciam o Encoberto: um rei que se esconde não para vingar o passado, mas para cumprir o que ainda falta. Correram de mão em mão, primeiro caladas, depois impressas, num tempo em que decorar versos era a única biblioteca ao alcance de quem não sabia ler. Numa das quadras que chegaram até nós, o poeta lê nos sinais do tempo o anúncio dessa vinda: «Já o Leão é esperto, mui alerto: já acordou, anda caminho; tirará cedo do ninho o porco, e é mui certo. Fugirá para o deserto do Leão, e seu bramido: demonstra que vai ferido desse bom Rei Encuberto.»
Em 1541, a Inquisição de Lisboa chamou Bandarra a contas. Foi preso em Trancoso e levado à sede do Santo Ofício, suspeito de que as Trovas escondessem marcas de judaísmo, numa vila com forte população cristã-nova. Não se lhe provou culpa que o condenasse a pena maior: saiu em auto de fé, a 23 de Outubro desse ano, nos paços da Ribeira em Lisboa, com uma vela amarela na mão, e ouviu a sentença que o proibia de escrever ou discorrer sobre a Escritura. Voltou a Trancoso, onde viveu até morrer, por volta de 1556.
A proibição não calou os versos: só lhes deu mais voz. Um século depois, o Padre António Vieira defendia-os em letra própria, na carta «Esperanças de Portugal» (1659), onde lê nas Trovas do sapateiro o anúncio do regresso de D. João IV, e paga esse atrevimento com anos de perseguição do mesmo Santo Ofício que julgara Bandarra. Fernando Pessoa fecha o arco quase quatro séculos depois, na «Mensagem»: dá-lhe uma estrela inteira em «O Encoberto» e resume-o numa quadra que é, ela própria, um veredicto sobre o mito: «Sonhava, anónimo e disperso, o Império por Deus mesmo visto, confuso como o Universo e plebeu como Jesus Cristo. Não foi nem santo nem herói, mas Deus sagrou com Seu sinal este, cujo coração foi não português mas Portugal.»
A força do mito de Bandarra vem precisamente daí: de baixo, não de cima. Não nasceu de um concílio nem de uma corte; nasceu de um homem sem letras eruditas que pôs em verso simples aquilo que muitos sentiam e ninguém dizia. Vieira deu-lhe teologia; Pessoa deu-lhe símbolo; mas a semente, o Encoberto, a espera, a promessa de que o que falta ainda se cumpre, é toda do sapateiro de Trancoso. Sem ele, não haveria porta por onde o Quinto Império entrasse primeiro no povo, antes de entrar nos livros. É essa a lição que fica: um mito só ganha raiz quando alguém, sem grau nem púlpito, o diz primeiro em voz alta.
Citações
«Já o Leão é esperto, mui alerto: já acordou, anda caminho; tirará cedo do ninho o porco, e é mui certo. Fugirá para o deserto do Leão, e seu bramido: demonstra que vai ferido desse bom Rei Encuberto.»
«Sonhava, anónimo e disperso, o Império por Deus mesmo visto, confuso como o Universo e plebeu como Jesus Cristo. Não foi nem santo nem herói, mas Deus sagrou com Seu sinal este, cujo coração foi não português mas Portugal.»
Obras
Constelação local
Estas são as estrelas mais próximas de Gonçalo Anes Bandarra no céu do Quinto Império.