As Trovas de Bandarra são tão frágeis na origem como incontestáveis no efeito: rimadas por um sapateiro da Guarda, provavelmente entre 1530 e 1540, abriram para Portugal uma leitura possível da sua própria história. Não como crónica, mas como profecia.
Bandarra não sabia ler grego nem latim. Nas suas trovas falam D. Sebastião, um «Encoberto», uma época de paz e prosperidade que há de chegar, um povo que ha de ser restaurado. Três séculos depois, padres jesuítas como Vieira encontraram nelas o que procuravam: a confirmação de que Portugal não acabara, que o que parecia morte era apenas gestação. O mito do Sebastianismo faz-se aqui, neste pequeno poema de oitavas, mas o que importa ao Quinto Império é mais fundo: a tese de que as nações têm uma vocação e um destino, e de que Portugal é o guardião de uma palavra que o mundo ainda não ouviu.
A profecia de Bandarra permanece ao lado do Quinto Império porque faz o gesto que define o conceito: transforma a história em sinal, a memória em promessa. Bandarra não explica; apenas aponta, com a inocência de quem de facto crê.
