
Conceito
em revisãoO Encoberto
Quem é o Encoberto?
Quem é o Encoberto? É a figura que Gonçalo Anes Bandarra, sapateiro de Trancoso, começou a trovar no século XVI: um rei que se afasta e regressa, oculto por um tempo, para cumprir o que os outros reis deixaram por fazer. Nas «Trovas», ainda antes de ter nome próprio, o Encoberto é uma espera: a certeza de que a história tem uma segunda oportunidade guardada.
Deu-se-lhe nome a 4 de Agosto de 1578, no dia em que o rei D. Sebastião desapareceu na derrota de Alcácer Quibir, no Norte de África, sem que o seu corpo fosse alguma vez reconhecido com certeza. Nesse silêncio nasceu o sebastianismo: a crença popular de que o rei não morrera, apenas se ausentara, e que havia de voltar numa manhã de nevoeiro para reerguer o que a derrota tinha partido. Portugal ficou sem coroa própria durante sessenta anos, sob o domínio espanhol, e essa ferida deu ao mito a sua urgência.
Mas o Encoberto não parou nesse rei. Um século depois, o Padre António Vieira retoma as trovas de Bandarra e lê-as à luz da profecia de Daniel: o que regressa já não precisa de ter sido D. Sebastião, precisa apenas de cumprir a promessa de um quinto império do Espírito. É a transformação decisiva do mito: o Encoberto deixa de ser um homem à espera de ressuscitar e passa a ser uma possibilidade à espera de se cumprir, em qualquer um, em qualquer tempo.
Fernando Pessoa herda essa leitura e dá-lhe a sua imagem mais duradoura. No poema final da «Mensagem», o rei que regressa já não tem corpo: é a bruma sobre o país. E o que a última linha promete não nomeia ninguém, chama-lhe apenas «a Hora». O Encoberto de Pessoa não pede fé num regresso literal; pede que se leia o nevoeiro como promessa, não como perda.
Por isso o Encoberto é a segunda porta do mito: onde a profecia de Daniel dá a arquitectura (quatro impérios que passam, um quinto que fica), o Encoberto dá-lhe um rosto que se recusa a fixar-se num só. Cada geração pode preenchê-lo com a sua própria espera, sem trair a promessa original. É por isso que a figura sobrevive há quase cinco séculos sem nunca se resolver: porque o que volta não é um rei, é uma pergunta que cada época tem de responder por si.
Página em preparação. O texto acima parte de factos estabelecidos; a leitura de Pessoa aguarda a validação do curador.