
1608–1697
em revisãoPadre António Vieira
Deu ao sonho do Encoberto uma razão e um destino, na «História do Futuro».
Quem foi o Padre António Vieira? O jesuíta que pegou na profecia de Daniel e nas trovas de um sapateiro de Trancoso e leu as duas com as mesmas ferramentas, as de teólogo, até lhes tirar uma arquitectura inteira do que Portugal ainda tinha por cumprir. Nasceu em Lisboa em 1608 e cresceu na Baía, para onde a família emigrou quando ele era ainda criança; entrou na Companhia de Jesus em 1623 e tornou-se o pregador mais ouvido do seu século: da capela real de D. João IV às aldeias do Maranhão, da corte de Roma aos cárceres da Inquisição de Coimbra.
Na «História do Futuro», Vieira promete o que nenhuma crónica promete: não o passado, mas o que ainda está por vir. «As outras histórias contam as cousas passadas, esta promete dizer as que estão por vir», escreve logo no primeiro capítulo do Livro Anteprimeiro, e a frase é o programa inteiro da obra. Ali, e na «Clavis Prophetarum», o tratado latino que considerava a sua obra maior e que reescreveu na Baía até ao fim da vida sem nunca o terminar, lê a queda dos quatro impérios de Daniel (Babilónia, Pérsia, Grécia, Roma) como preparação de um quinto que já não seria de armas nem de território: o Império do Espírito Santo, do qual Portugal seria instrumento, não dono.
A carta «Esperanças de Portugal, Quinta Monarquia» tem data e destinatário exactos: Vieira escreve-a ao padre André Fernandes a 29 de Abril de 1659, no momento em que Portugal, tendo acabado de restaurar a coroa aos Bragança, via a fortuna do Brasil e das praças da Índia a esvair-se-lhe das mãos. É aí que a esperança se torna doutrina: a derrota, lida à luz de Bandarra e de Daniel, deixa de ser fim para passar a anúncio. A carta havia de custar-lhe caro. Entregue ao Santo Ofício em 1660, tornou-se peça central de um processo que abriu formalmente em 1663 (Vieira depõe em Coimbra a 21 de Julho), passou pela prisão a partir de Outubro de 1665 e terminou a 23 de Dezembro de 1667 com sentença que o proibiu, para sempre, de pregar ou de escrever sobre as suas profecias.
O Quinto Império que Vieira desenha na «História do Futuro» é uma consumação cristã, não uma federação de crenças: «Todos os reinos se unirão em um centro, todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça, todas as coroas se rematarão em uma só diadema», escreve, «e esta será a peanha da cruz de Cristo». Mas dentro dessa moldura cabe uma vocação que ultrapassa Portugal. Foi o mesmo Vieira que, de volta ao Maranhão em 1653, assumiu a defesa dos índios contra a escravização pelos colonos: pregou-lhes o «Sermão de Santo António aos Peixes» em 1654, embarcou dias depois para Lisboa a pedir leis que os protegessem, e acabou expulso pelos próprios colonos em 1661. E foi ainda Vieira quem, já com processo movido contra si, defendeu os cristãos-novos face ao confisco de bens que a Inquisição lhes aplicava, e propôs ao rei atrair capital de mercadores judeus exilados em Amesterdão com garantias legais, gesto que o tribunal nunca lhe perdoou. Não era tolerância no sentido moderno da palavra: era a convicção teológica de que o Quinto Império só se cumpre acolhendo os que ainda faltam.
É esta densidade que faz de Vieira a dobradiça do mito. Bandarra trova sem saber bem o que trova; Vieira lê essa trova com Daniel na mão e dá-lhe teologia, data e lugar no plano de Deus, dá ao sonho do Encoberto uma razão e um destino. Quase dois séculos depois, Fernando Pessoa há-de pegar nessa arquitectura e esvaziá-la de império concreto, deixando-a em símbolo puro, sem trono nem mapa. Entre o sapateiro que sonha e o poeta que depura o sonho está o jesuíta que lhes deu a primeira arquitectura: aquela sem a qual nem Pessoa, nem o que ainda nos falta cumprir, se entenderiam.
Página em preparação. O texto acima parte de factos documentados (datas do processo inquisitorial, da carta de 1659 e dos episódios do Maranhão); a selecção final de citações e a leitura teológica aguardam a validação do curador.
Citações
«As outras histórias contam as cousas passadas, esta promete dizer as que estão por vir; as outras trazem à memória aqueles sucessos públicos que viu o Mundo; esta intenta manifestar ao Mundo aqueles segredos ocultos e escuríssimos que não chega a penetrar o entendimento.»
«Todos os reinos se unirão em um centro, todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça, todas as coroas se rematarão em uma só diadema, e esta será a peanha da cruz de Cristo.»
Constelação local
Estas são as estrelas mais próximas de Padre António Vieira no céu do Quinto Império.