Padre António Vieira escreveu muitos sermões. Mas a «História do Futuro» é diferente: é profecia sistemática, teologia desentranhada de leitura profunda. Começou-a no Brasil, continuou-a em Roma, deixou-a por terminar. Só foi publicada postumamente, quase quarenta anos após a sua morte em 1697.
O génio de Vieira foi conectar o fio solto: as Trovas de Bandarra, que a gente ignorava ou tomava por superstição, são o anúncio de um Quinto Império anunciado também por Daniel. Vieira demonstra: quatro impérios cabem na História — o babilónico, o persa, o grego, o romano. Mas há um quinto, que não é de armas nem de terras: é do Espírito Santo. É isto. Portugal não desapareceu quando perdeu o Brasil e achou-se pequeno: Portugal espera. Espera ser instrumento dessa transformação final, da era em que os povos conhecerão a Deus directamente, sem intermediários.
A loucura de Vieira era não ser louco. Tinha uma biblioteca de referências, comentários a comentários, genealogias proféticas. Essa solidez teológica é o que permite ao Quinto Império não cair no misticismo vago. Não é sonho: é promessa lida, interpretada, e deixada connosco em herança.
