O Quinto Império
A Profecia de Daniel, gravura a ouro sobre azul-nocturno.

Conceito

em revisão

A Profecia de Daniel

De onde vem a ideia de um quinto império?

De onde vem a ideia de um quinto império? Vem de um sonho, contado num livro escrito há mais de dois mil anos: o Livro de Daniel. No segundo capítulo, o rei Nabucodonosor da Babilónia sonha com uma estátua enorme, cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre e coxas de bronze, pernas de ferro, pés de ferro misturado com barro (Daniel 2, 31-33). Só Daniel sabe ler o sonho: cada metal é um reino, uma dinastia que há-de vir depois da outra, cada vez mais dura por fora e mais frágil por dentro.

Depois vem a parte que interessa de facto a este mito: uma pedra solta-se sem mão nenhuma a atirá-la, esmaga os pés de ferro e barro, e a estátua toda desaba (Daniel 2, 34-35). E então, só então, a pedra cresce: torna-se montanha, enche a terra inteira, e o seu reino "nunca será destruído" (Daniel 2, 44-45). Quatro reinos vêm e passam. O quinto não é um reino a mais: é o que fica quando os outros caem.

Chama-se a estes quatro reinos os impérios da matéria: não porque lhes falte grandeza, mas porque são feitos do que se pode pesar, cunhar, conquistar, exércitos, fronteiras, tesouros. A tradição cristã, desde os primeiros séculos, leu neles a Babilónia, a Média-Pérsia, a Grécia e Roma, e no quinto império o Reino de Deus, um reino que já não se mede em léguas de território.

Foi este esquema que a exegese portuguesa herdou e reescreveu. No século XVII, o Padre António Vieira pegou na visão de Daniel e leu-a a par das trovas do sapateiro Bandarra: na «História do Futuro» e na «Clavis Prophetarum», o quinto império deixa de ser só uma alegoria bíblica e torna-se uma promessa concreta, cumprida por cultura, língua e fraternidade, nunca por espada. É esta a viragem decisiva: um texto escrito na Babilónia do século VI a.C. passa a falar, dois mil e duzentos anos depois, de um destino que corre pela história a partir de Portugal, e por ele, para o mundo inteiro.

Por isso a profecia de Daniel é a primeira das quatro portas: sem ela não há Encoberto, nem Era do Espírito Santo, nem Ilha dos Amores, só a matéria a mudar de dono, império atrás de império. Com ela, a história ganha uma direcção: a pedra que se faz montanha é a primeira imagem, de todas as que o mito vai usar, de um poder que já não conquista, cumpre.

Página em preparação. O texto acima parte de factos estabelecidos; a leitura teológica aguarda a validação do curador.