
Conceito
em revisãoA Ilha dos Amores
O que é a Ilha dos Amores?
O que é a Ilha dos Amores? É a ilha que Camões faz surgir no fim de «Os Lusíadas» para receber os navegantes: um jardim fora do mapa onde o esforço se transforma em festa. Na letra do poema é um prémio; na leitura do mito é muito mais.
A ilha aparece no Canto IX e ocupa quase todo o Canto X: Vénus e as suas ninfas premeiam Vasco da Gama e a sua tripulação depois da viagem à Índia, com festa, amor e descanso. É ainda no Canto X que a nereida Tétis mostra a Gama a «Máquina do Mundo», a visão do universo inteiro, antes de o deixar partir de novo, agora para casa. A Ilha não é o fim da viagem: é a pausa em que se mostra, por instantes, o desenho completo de tudo.
O próprio Camões avisa que não é para se ler à letra. Na voz de Tétis, o poeta explica a Gama que a ilha e o amor das ninfas são alegoria: aquilo que ali se prémia é a Fama, o reconhecimento devido a quem arrisca a vida por um bem maior, não uma recompensa carnal. Já no século XVI, portanto, «Os Lusíadas» preparam o terreno para uma segunda leitura, mais funda do que a primeira. É esse convite, deixado pelo próprio autor, que o Quinto Império aceita e leva mais longe.
Agostinho da Silva leu nela a figura do fim de toda a viagem, o supremo objectivo a que o mito aponta: a total libertação do homem, do tempo e do espaço. Na Ilha, o homem e a natureza deixam de estar em lados opostos: as ninfas não são espectáculo, são a própria natureza a acolher o esforço humano como se fosse seu. O poeta à solta, o ser reintegrado no que sempre foi. Não é um lugar a que se chega de barco; é um estado a que se chega por dentro.
Por isso a Ilha dos Amores fecha o ciclo das quatro portas, e fecha-o de um modo diferente das outras três. A profecia de Daniel dá a arquitectura do mito: quatro impérios que caem, um quinto que fica. O Encoberto dá-lhe um rosto que volta. A Era do Espírito Santo dá-lhe um calendário e uma prática de partilha. A Ilha dá-lhe o destino.
Diz, numa só imagem, aquilo que o mito promete: não um território a mais, mas o regresso ao Paraíso de que se partiu, um Paraíso que não é de Portugal sozinho, é do mundo, através de Portugal, feito para se dar a quem quer que lá chegue.