O Quinto Império
Agostinho da Silva, gravura a ouro sobre azul-nocturno.

1906–1994

em revisão

Agostinho da Silva

A Era do Espírito Santo como programa de vida: o poeta à solta.

Quem foi Agostinho da Silva? O pensador que pegou no velho sonho do Quinto Império e o tirou do futuro para o pôr nas tuas mãos, hoje. Onde Vieira leu profecia e Pessoa leu símbolo, ele leu programa: a Era do Espírito Santo não é uma data que se espera, é uma maneira de viver que se começa.

Nasceu no Porto em 1906 e morreu em Lisboa em 1994. Pelo meio, recusou dobrar-se: negou-se a assinar as declarações de fidelidade que o Estado Novo exigia aos professores e partiu para o exílio no Brasil, onde ajudou a fundar universidades e a sua ideia de Portugal cresceu para lá de Portugal. Voltou tarde, e foi nas entrevistas de televisão dos últimos anos que o país o descobriu, o velho de olhos claros que falava do sagrado como quem fala do tempo.

O império é serviço, não domínio

Para Agostinho da Silva, o Quinto Império é o contrário daquilo que a palavra império promete. Não é um sexto poder a suceder aos cinco, é o fim da própria lógica do poder: um reino sem conquista, sem propriedade, sem trono. «Paradoxalmente», escreveu, «apenas haverá um 5.º Império se não existir um 5.º Imperador.»

Por isso o mito, nele, muda de sentido. Os quatro impérios da matéria mediram-se pela força; este mede-se pela entrega. O destino não é mandar nos povos, é servi-los, até restar a reintegração dos seres e a Fraternidade Universal. O império que ele imagina não conquista ninguém: fica ao lado de quem é pisado.

A liberdade criadora, o poeta à solta

O centro do seu pensamento cabe numa palavra: liberdade. O homem não nasceu para obedecer, nasceu para criar, e é a criar que se parece com o divino. Poeta, na etimologia grega, é aquele que faz, que traz ao mundo o que não existia; e ser poeta não é privilégio de quem escreve versos. «O homem foi feito para ser um poeta à solta», dizia, «seja qual for a sua expressão poética. Pode ser a música, a literatura ou coisa nenhuma.»

É este o convite que ele te faz: quando fores livre, poeta à solta, resgatas a criança que foste e passas a criar, como a pessoa cria. O Quinto Império não se cumpre quando todos pensam o mesmo, cumpre-se quando cada um se atreve a criar por si.

A infância como categoria filosófica

A criança não é, para Agostinho, uma fase que se supera: é o estado a que se regressa. Ele fez da infância uma categoria do espírito, o nome daquela forma de ver o mundo que os dogmas ainda não toldaram, a pureza que sabe brincar, perguntar e criar sem pedir licença. Educar, então, não é moldar ninguém, é proteger o que a criança traz. Para Agostinho, ela é o bom selvagem, e a tarefa do adulto é estragá-la o menos possível, «defendendo o seu tesouro de sonho, jogo e criação, a sua espontaneidade e a sua malícia sem maldade».

Salvar a criança que sobrou no adulto é, para ele, o primeiro acto de um reino do Espírito: um mundo em que nenhuma criança se sinta obrigada, ao nascer, a desistir de ser.

A lusofonia fraterna

A língua portuguesa é, para ele, menos uma herança a guardar do que uma promessa a cumprir. É o fio mais forte deste império sem território: uma pátria que não se defende com fronteiras, faz-se com quem a fala, em Lisboa, em Luanda, em São Paulo ou em Díli. E o preço é exigente: «[Esse Império] só poderá surgir quando Portugal, sacrificando-se como Nação, apenas for um dos elementos de uma comunidade de língua portuguesa.»

Repara no avesso de qualquer nostalgia imperial. Aqui Portugal não é dono de nada, é semente: dá-se, não domina, e desaparece como centro para renascer como parceiro. O Brasil e a África não são passado a lamentar, são a figura do que aí vem, um encontro em que ninguém manda e ninguém é apagado, um universalismo que soma culturas em vez de sobrepor uma às outras. De todos, todos, todos.

As festas do Espírito Santo, a versão viva

O Quinto Império não é só ideia, e Agostinho gostava de mostrar onde ele já se pratica: nas festas do Espírito Santo. Nos Açores e por onde os açorianos foram, uma coroa passa de casa em casa, come-se em comum, e é muitas vezes uma criança que a leva. Ali está, em festa de povo, aquilo que os doutores discutem em livros. Para Agostinho, «o que o povo diz no seu mais espontâneo e autêntico Culto é que devem as crianças governar o mundo, como afinal defendia Cristo»: e mais, que o pão de todos os dias seja abundante e gratuito, que se abram as prisões.

Esta é a face popular do mito, o irmão gémeo do sebastianismo dos doutores: uma reza a mesma esperança em latim de livros, a outra reza-a com pão, música e uma criança coroada. Para Agostinho, a segunda estava mais perto da verdade, porque o Espírito, quando desce, prefere as mãos simples.

Ser espiritual é agir

Ser espiritual, para Agostinho da Silva, não é fugir do mundo: é agir dentro dele. A raiz vertical, a mística, só serve se dela brotarem ramos horizontais, gestos concretos que mudam a vida de alguém. A queixa era, para ele, uma forma de preguiça. «Só começamos, na verdade, a melhorar quando deixamos de nos queixar dos outros para nos queixarmos de nós, quando nos resolvemos a fornecer nós mesmos ao mundo o que nos parece faltar-lhe.»

É esta a ponte entre o velho mito e ti: o Quinto Império é acção. Não te pede que acredites em profecias, pede-te que faças a tua parte, hoje, com as mãos que tens. É a Hora, dizia ele, e a Hora não é um dia marcado no calendário: é agora, sempre que alguém se atreve a criar.

Página em preparação. O texto parte de factos estabelecidos e de citações com fonte identificável; a selecção final e o retrato aguardam a validação do curador.

Citações

«Paradoxalmente, apenas haverá um 5.º Império se não existir um 5.º Imperador.»
Agostinho da Silva · «Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa»
«O homem foi feito para ser um poeta à solta, seja qual for a sua expressão poética. Pode ser a música, a literatura ou coisa nenhuma.»
Agostinho da Silva · entrevista ao «Diário de Lisboa» (1986), in «Dispersos»
«É à criança que temos de considerar o bom selvagem, estragando-a, deformando-a, inutilizando-a o menos que nos seja possível, defendendo o seu tesouro de sonho, jogo e criação, a sua espontaneidade e a sua malícia sem maldade.»
Agostinho da Silva · «Educação de Portugal» (1989)
«[Esse Império] só poderá surgir quando Portugal, sacrificando-se como Nação, apenas for um dos elementos de uma comunidade de língua portuguesa.»
Agostinho da Silva · «Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa»
«O que o povo diz no seu mais espontâneo e autêntico Culto é que devem as crianças governar o mundo, como afinal defendia Cristo; que deve o que se consome de básico ser abundante e gratuito, como nas Bodas de que fala o Evangelho, multiplicando-se o Pão; que se devem abolir as prisões, como ordena o «Não Julgueis».»
Agostinho da Silva · «Dez Notas sobre o Culto Popular do Espírito Santo» (1984), in «Dispersos»
«Só começamos, na verdade, a melhorar quando deixamos de nos queixar dos outros para nos queixarmos de nós, quando nos resolvemos a fornecer nós mesmos ao mundo o que nos parece faltar-lhe.»
Agostinho da Silva · «Textos e Ensaios Filosóficos»

Constelação local

Estas são as estrelas mais próximas de Agostinho da Silva no céu do Quinto Império.

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