O Quinto Império
Fernando Pessoa, gravura a ouro sobre azul-nocturno.

1888–1935

em revisão

Fernando Pessoa

«Mensagem»: o império feito símbolo, sem trono nem mapa.

O Quinto Império de Fernando Pessoa não é uma profecia à espera de data no calendário: é um mistério que se lê por dentro. Onde o Padre António Vieira construíra uma teologia da história, com sinais, contas e um reino anunciado, Pessoa recolhe o mesmo mito e devolve-o transformado em símbolo. O império deixa de ser conquista e passa a enigma; a pergunta já não é quando chega, mas o que quer dizer. É assim que Pessoa fecha a linhagem que começa no terreno mítico de Camões e passa pela leitura profética de Vieira: nele, o sonho de oito séculos torna-se matéria de filosofia, não de crónica.

Um livro-templo

A «Mensagem» é a única forma acabada que Pessoa deu a esta leitura, e é um livro construído como um templo. São quarenta e quatro poemas repartidos por três partes que sobem como três pisos do mesmo edifício. «Brasão» arma o fundamento no passado: os campos, os castelos, as quinas, os heróis feitos pedra de armas. «Mar Português» é a travessia, o gesto, o preço pago ao mar. «O Encoberto» é o alto da construção, onde o passado e o gesto se abrem para o que ainda não veio. Nada aqui conta a história como ela foi; tudo a lê como cifra, à procura de um sentido que o poema deixa em aberto. Por isso a «Mensagem» se atravessa como quem entra numa capela, símbolo a símbolo. Logo à porta, «O Infante» entrega a chave do método: «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.» A obra, que é o império, nasce de um querer que passa pelo sonho do homem. Não é a força que a faz: é a visão.

O Encoberto, por dentro

O Encoberto, em Pessoa, não é um rei que volta, mas o que em nós ainda está por acordar. Na terceira parte da «Mensagem» regressam o Bandarra e D. Sebastião, despidos de crónica. Sebastião já não é o homem que se perdeu em Alcácer-Quibir, à espera de desembarcar numa manhã de nevoeiro; é o nome de uma promessa. O poema «O Quinto Império» diz o mito inteiro numa pergunta. Depois de nomear os impérios que passam, «Grécia, Roma, Cristandade, / Europa – os quatro se vão / Para onde vai toda idade», resta a interrogação: «Quem vem viver a verdade / Que morreu D. Sebastião?» Quatro impérios da matéria vieram e foram-se; o quinto não se toma de armas, espera-se e cumpre-se por dentro. O motor dessa espera é a inquietação, não a nostalgia: «Ser descontente é ser homem.»

Um sebastianismo racional

O que Pessoa faz ao sebastianismo é depurá-lo: troca a espera de um corpo pela leitura de um símbolo. O sebastianismo popular aguardava um homem que desembarcasse; o de Pessoa aguarda um sentido que se acorde. É um sebastianismo racional, no qual D. Sebastião vale como figura e não como notícia, e o Encoberto é um princípio de esperança, não um regresso marcado. Daí que o império que a «Mensagem» quer seja o de nada querer poder: um poder que só se tem renunciando a dominar, o contrário exacto de uma bandeira.

A pátria é a língua

A pátria deste império não tem mapa: é a língua. Num dos passos mais conhecidos do «Livro do Desassossego», Bernardo Soares, o semi-heterónimo em que Pessoa mais se deixou ser quase ele próprio, escreve: «Minha pátria é a língua portuguesa.» A frase diz o que separa este império de todos os outros. Não é um território a defender nem um trono a ocupar; é um idioma a habitar, aberto a quem o fala, de Lisboa a Luanda, do Recife a Díli. O Quinto Império de Pessoa é cultural e espiritual antes de ser qualquer outra coisa, e por ser da língua é de todos os que a falam, nunca de uma nação contra as demais.

O que fica

Fica então uma herança que não pede fé, pede leitura. Pessoa não te promete um reino: entrega-te um enigma e a inquietação de o pensar. O Quinto Império que ele cifrou na «Mensagem» não é o que vem depois dos outros; é o que ainda nos falta cumprir, e começa a cumprir-se em quem lê. O resto está aqui ao lado: a «Mensagem» inteira, o Bandarra que Pessoa pôs a brilhar na terceira parte, e as portas por onde este mistério continua a abrir-se.

Página em preparação. O texto acima parte de factos estabelecidos e de citações verificadas na «Mensagem» e no «Livro do Desassossego»; a selecção final aguarda a validação do curador.

Citações

«Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.»
Fernando Pessoa · «Mensagem», «O Infante»
«Ser descontente é ser homem.»
Fernando Pessoa · «Mensagem», «O Quinto Império»
«Grécia, Roma, Cristandade, / Europa – os quatro se vão / Para onde vai toda idade.»
Fernando Pessoa · «Mensagem», «O Quinto Império»
«Minha pátria é a língua portuguesa.»
Bernardo Soares · «Livro do Desassossego»

Constelação local

Estas são as estrelas mais próximas de Fernando Pessoa no céu do Quinto Império.

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