O Quinto Império
Luís de Camões, gravura a ouro sobre azul-nocturno.

c. 1524–1580

em revisão

Luís de Camões

«Os Lusíadas»: a Ilha dos Amores, a total libertação do homem, do tempo e do espaço.

Quem foi Luís de Camões, para o Quinto Império? O poeta que decidiu que a viagem portuguesa merecia mais do que uma crónica: merecia um mito. Luís de Camões (c. 1524–1580) viveu de perto o mundo que descreveu, entre teatros de guerra no Norte de África, o Oriente português e os rigores de uma vida sem fortuna, mas o que deixou não é memória de viagens. É «Os Lusíadas» (1572), a epopeia que transforma factos de armada em matéria de sonho.

É por isso que o Quinto Império começa esteticamente em Camões. Antes de Vieira lhe dar teologia, antes de Pessoa o fazer símbolo, foi preciso alguém pôr a história portuguesa em verso à altura de Virgílio, e assim mostrar que ela cabia num destino maior do que qualquer relação de viagem. Camões prepara o terreno mítico: não inventa o Encoberto nem o Quinto Império, mas dá à viagem portuguesa a forma de epopeia, o único molde em que um mito consegue mesmo caber.

O momento mais alto dessa transformação é a Ilha dos Amores, nos Cantos IX e X. Vénus faz surgir aos navegadores, no fim da viagem, uma ilha que o poema descreve logo na sua chegada: «De longe a Ilha viram, fresca e bela, / Que Vénus pelas ondas lha levava / (Bem como o vento leva branca vela) / Para onde a forte armada se enxergava.» O próprio poema avisa, porém, que a ilha não é um território a mais nem um simples prémio de carne. Poucas estrofes depois, é o próprio Camões quem o explica: «Que as Ninfas do Oceano tão formosas, / Tethys, e a ilha angélica pintada, / Outra coisa não é que as deleitosas / Honras que a vida fazem sublimada.» A Ilha dos Amores é a glória lida como destino: a total libertação do homem, do tempo e do espaço, como lhe chamaria Agostinho da Silva quatro séculos depois.

No Canto X, Tétis mostra aos portugueses a Máquina do Mundo, o cosmos inteiro resumido numa só visão: «Vês aqui a grande máquina do Mundo, / Etérea e elemental, que fabricada / Assi foi do Saber, alto e profundo, / Que é sem princípio e meta limitada.» Não é um prémio de conquistadores: é um conhecimento que se oferece a quem já não precisa de mais território para ser grande. O gesto repete, em ciência, o que a Ilha já dissera em festa. O destino não é ter mais mundo: é compreendê-lo e reintegrar-se nele.

O próprio poema já duvida da leitura mais fácil. No Canto IV, antes de a armada partir, o Velho do Restelo levanta a voz contra a ambição de mandar: «Ó glória de mandar! Ó vã cobiça / Desta vaidade, a quem chamamos Fama! / Ó fraudulento gosto, que se atiça / C'uma aura popular, que honra se chama!» É a própria epopeia, por dentro, a desconfiar do império como conquista. O que só reforça a leitura que aqui se propõe: «Os Lusíadas» não celebram o território ganho, celebram algo que lhe sobrevive.

Por isso Camões prepara o terreno mítico e não o resultado final. Dá a Vieira e a Pessoa uma linguagem e uma imagem (a Ilha, a Máquina, o mar como caminho) que outros haveriam de reler como profecia e como símbolo. O Quinto Império que aqui se conta não é o dos mapas que a armada desenhou. É o que a Ilha dos Amores já anunciava: um destino sem bandeira, aberto a quem lá chegar.

Citações

«De longe a Ilha viram, fresca e bela, / Que Vénus pelas ondas lha levava / (Bem como o vento leva branca vela) / Para onde a forte armada se enxergava; / Que, por que não passassem, sem que nela / Tomassem porto, como desejava, / Para onde as naus navegam a movia / A Acidália, que tudo enfim podia.»
Luís de Camões · «Os Lusíadas», Canto IX, est. 52
«Que as Ninfas do Oceano tão formosas, / Tethys, e a ilha angélica pintada, / Outra coisa não é que as deleitosas / Honras que a vida fazem sublimada. / Aquelas proeminências gloriosas, / Os triunfos, a fronte coroada / De palma e louro, a glória e maravilha: / Estes são os deleites desta ilha.»
Luís de Camões · «Os Lusíadas», Canto IX, est. 89
«Vês aqui a grande máquina do Mundo, / Etérea e elemental, que fabricada / Assi foi do Saber, alto e profundo, / Que é sem princípio e meta limitada. / Quem cerca em derredor este rotundo / Globo e sua superfícia tão limada, / É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende, / Que a tanto o engenho humano não se estende.»
Luís de Camões · «Os Lusíadas», Canto X, est. 80
«Ó glória de mandar! Ó vã cobiça / Desta vaidade, a quem chamamos Fama! / Ó fraudulento gosto, que se atiça / C'uma aura popular, que honra se chama! / Que castigo tamanho e que justiça / Fazes no peito vão que muito te ama! / Que mortes, que perigos, que tormentas, / Que crueldades neles experimentas!»
Luís de Camões · «Os Lusíadas», Canto IV, est. 95 (fala do Velho do Restelo)

Constelação local

Estas são as estrelas mais próximas de Luís de Camões no céu do Quinto Império.

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