«Nós e a Europa ou as Duas Razões» saiu em 1988 na Imprensa Nacional-Casa da Moeda, dez anos depois de «O Labirinto da Saudade», e valeu a Eduardo Lourenço, nesse mesmo ano, o Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon. Se o «Labirinto» olhava Portugal por dentro, este livro olha-o de fora: da Europa em que Lourenço vivia havia trinta e cinco anos e a que Portugal acabava de aderir.
As «duas razões» do título são duas culturas: a razão cartesiana, do Norte, feita de método e de limite, e a razão barroca, ibérica, feita de excesso e de imagem. Portugal e Espanha viveram séculos «dentro e fora» do espaço europeu, no centro dele quando o mundo se abria e à margem quando a Europa se pensou a si mesma como razão. É desse desencontro que nasce a relação portuguesa com a Europa, mistura de fascínio e de ressentimento, e é a ele que Lourenço dá o nome que ficou: hiperidentidade. Portugal, escreve, nunca teve uma crise de identidade como a Catalunha, o País Basco ou a Irlanda; é difícil encontrar um país «tão centrado, tão concentrado, tão bem definido em si mesmo como Portugal». O seu problema não é saber quem é, é ter uma imagem de si tão forte que a realidade lhe escapa.
Para esta casa, o livro é a chave que faltava ao sebastianismo e ao Quinto Império: são as formas mais altas dessa hiperidentidade, um povo pequeno que se pensa como missão do mundo. Lourenço não as condena. Pede apenas que a Europa em que entramos seja uma cultura das diferenças, e não um espaço onde a imagem portuguesa se dissolva sem ter sido, primeiro, compreendida.
