
1923–2020
em revisãoEduardo Lourenço
«O Labirinto da Saudade»: amar o mito de olhos abertos.
Quem foi Eduardo Lourenço? O ensaísta que pegou nos mitos portugueses, do sebastianismo ao Quinto Império, e os leu como um psicanalista lê um sonho: não para os desfazer, mas para perceber o que dizem de quem os sonha. Nasceu a 23 de Maio de 1923 em São Pedro de Rio Seco, aldeia raiana do concelho de Almeida, e morreu em Lisboa a 1 de Dezembro de 2020, aos noventa e sete anos, com luto nacional decretado. Entre uma data e a outra viveu a maior parte da vida fora de Portugal: olhou o país de longe, como quem olha uma imagem ao espelho, e dessa distância fez método.
Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas em Coimbra em 1946 e foi ali assistente entre 1947 e 1953; em 1949 editou à sua custa o primeiro volume de «Heterodoxia», onde já estava tudo: a recusa das ortodoxias, fossem católicas, marxistas ou nacionalistas. Em 1953 partiu, e nunca mais viveu de vez em Portugal: leitor de língua e cultura portuguesas em Hamburgo e Heidelberg (1953–55) e em Montpellier (1956–58), professor visitante na Baía (1958–59), leitor em Grenoble (1960–65) e, a partir de 1965, professor na Universidade de Nice, onde se jubilou em 1988. Fixou casa em Vence, por cima de Nice, e foi de lá que escreveu, durante meio século, sobre um país que só via de visita. Recebeu o Prémio Camões em 1996 e o Prémio Pessoa em 2011, e em 2016 foi nomeado Conselheiro de Estado, lugar que ocupou até morrer.
O livro que o fixou na memória de toda a gente é «O Labirinto da Saudade», publicado em 1978 pela Dom Quixote com um subtítulo que é já uma tese: «Psicanálise Mítica do Destino Português». São nove ensaios escritos entre a Revolução e a descolonização, abertos por dois versos da «Mensagem» que podiam ser a divisa desta casa: cumpriu-se o mar, falta cumprir-se Portugal. A ideia central é simples e desconcertante: Portugal viveu menos a sua realidade do que a imagem que fez de si, e essa imagem, da fundação improvável ao império desmedido, foi sempre maior do que o corpo que a carregava. O sebastianismo é, nessa leitura, o momento em que a imagem se solta de vez do corpo: «esse sebastianismo representa a consciência delirada de uma fraqueza nacional, de uma carência, e essa carência é real», escreve. Repara no fim da frase. Lourenço não diz que o mito é mentira; diz que a carência que o mito exprime é verdadeira. E é por isso que o pode amar: a saudade não é uma doença a curar, é a forma que uma nação encontrou de continuar a existir quando a sua razão de ser passou a ser, nas palavras dele, «o termos sido».
É neste labirinto que ele encontra o Padre António Vieira e Fernando Pessoa, as duas grandes figuras do Quinto Império. De Vieira diz que nele a confusão entre o real e o sonho foi mais longe do que em qualquer outra cabeça, «mistura única de lucidez delirante e delírio divino», e que nele a longa ansiedade pelo destino pátrio se transfigurou «em cantata sublime ao Quinto Império». De Pessoa, a quem dedicara em 1973 «Pessoa Revisitado», tem uma leitura mais funda e mais cautelosa. No ensaio «Da literatura como interpretação de Portugal» pergunta se o Quinto Império pessoano é «algo mais que a promoção estelar, a conversão em mito do irrealismo histórico de uma Nação condenada desde a origem a esgotar-se em sonhos maiores que ela mesma». A pergunta fica aberta, mas a resposta desenha-se: sem poder e sem renome, Portugal só pode ser, em Pessoa, «teatro de uma epopeia da alma», uma «ulisseia espiritual» voltada para um Ocidente futuro. E Lourenço acrescenta a advertência que esta casa toma como sua: o Quinto Império de Pessoa «não exigia o delírio e a inconsciência e os vãos sacrifícios» do império terrestre, e quem usou o profetismo da «Mensagem» para justificar a última aventura colonial cometeu «um contra-senso literário». Lido por Lourenço, o Quinto Império é o avesso de qualquer império com o nome no mapa.
Dez anos depois, em «Nós e a Europa ou as Duas Razões» (1988), que lhe valeu o Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon, deu nome ao que o «Labirinto» descrevia. Portugal, diz ele, nunca teve uma crise de identidade como a Catalunha, o País Basco ou a Irlanda; é difícil encontrar um país «tão centrado, tão concentrado, tão bem definido em si mesmo como Portugal». O problema é outro, e ele chamou-lhe hiperidentidade: um excesso de identidade, uma imagem de si tão forte que por vezes substitui a realidade. O Quinto Império é, a essa luz, a forma mais alta dessa hiperidentidade: um povo pequeno que se pensa como missão do mundo. Lourenço não se ri disso. Em «Mitologia da Saudade» e em «Portugal como Destino» (ambos de 1999) retoma a linhagem inteira, de Camões a Pascoaes, para mostrar que a saudade não é um sentimento entre outros: é a mitologia com que Portugal se pensa, e uma mitologia não se refuta, entende-se.
É por isso que nenhuma leitura séria do Quinto Império dispensa Eduardo Lourenço. Onde António Quadros pôs o mito em sistema e Agostinho da Silva o converteu em programa, Lourenço fez a única coisa que faltava: obrigou-o a conhecer-se. O seu método é o contrário da desmistificação que julga curar o doente tirando-lhe o sonho; ele sabia que sem sonho não há doente nem país. O que pede é mais difícil e mais adulto: amar o mito de olhos abertos, saber que a imagem é imagem e continuar, apesar disso, a perguntar o que ela quer de nós. Se o Quinto Império é o que ainda nos falta cumprir, Lourenço é quem nos lembra que o cumprimento começa por não confundir o que somos com o que sonhámos ser. O Encoberto, lido por ele, não é um rei que volta: é uma nação que finalmente se vê.
Página em preparação. O texto parte de factos documentados e de citações conferidas no texto de «O Labirinto da Saudade» (5.ª ed., 1992); a leitura da hiperidentidade e a selecção final aguardam a validação do curador.
Citações
«[E]sse sebastianismo representa a consciência delirada de uma fraqueza nacional, de uma carência, e essa carência é real.»
«É difícil conceber que a confusão entre o real e o sonho possa ir mais longe do que o foi na cabeça do António Vieira das alegações diante do Santo Ofício, mistura única de lucidez delirante e delírio divino.»
«O Quinto Império, segundo Pessoa, é algo mais que a promoção estelar, a conversão em mito do irrealismo histórico de uma Nação condenada desde a origem a esgotar-se em sonhos maiores que ela mesma?»
«O «Quinto Império» de Pessoa não exigia o delírio e a inconsciência e os vãos sacrifícios ao fim dos quais perdemos, como era previsível até para cegos de nascimento, um império terrestre que só começou a existir a sério para a Nação quando surgiu no horizonte a possibilidade da sua perda.»
Constelação local
Estas são as estrelas mais próximas de Eduardo Lourenço no céu do Quinto Império.