
1923–1993
em revisãoAntónio Quadros
«Portugal, Razão e Mistério»: o mito posto em sistema.
Quem foi António Quadros? O ensaísta que pegou em oito séculos de profecia portuguesa dispersa por trovas, sermões e poemas e a pôs em sistema: razão e mistério lidos como um só destino, com nome, cronologia e arquitectura. António Gabriel de Quadros Ferro nasceu em Lisboa a 14 de Julho de 1923, filho de dois escritores, Fernanda de Castro e António Ferro, e cresceu numa casa por onde passava a Lisboa literária do seu tempo. Morreu em Lisboa a 21 de Março de 1993. Formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa e, em 1953, entrou na tertúlia da Brasileira do Rossio onde Álvaro Ribeiro e José Marinho reuniam o grupo a que se chamou Filosofia Portuguesa: uma corrente que se reclamava de Leonardo Coimbra, de Sampaio Bruno e de Teixeira de Pascoaes, e que defendia que um povo também pensa à sua maneira, com os seus mitos e a sua língua.
Quadros foi, antes de mais, um organizador. Dirigiu a revista «57» (1957–1962) e a «Espiral» (1964–1966), trabalhou nas bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian a partir de 1958, e em 1969 fundou o IADE, escola pioneira do design em Portugal, que dirigiu durante mais de vinte anos. Em 1992, já perto do fim, ajudou a fundar o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira. Pelo meio, fez de Fernando Pessoa o seu autor: «Fernando Pessoa: A Obra e o Homem» (1960), «Fernando Pessoa: Vida, Personalidade e Génio» (1981) e, em 1986, a edição da obra poética e em prosa em três volumes que organizou com Dalila Pereira da Costa. Foi por Pessoa, e pela «Mensagem», que chegou ao mito.
O primeiro grande livro do tema é «Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista» (dois volumes, 1982–1983): no primeiro, a poesia do sebastianismo em Portugal e no Brasil, do Bandarra a Pessoa; no segundo, a polémica, a história e a teoria do mito. É ali que Quadros faz a distinção de que este site vive. Um mito, diz ele, pode ser lido de duas maneiras: como espera, e então adormece quem o lê; ou como razão de agir. «Quando a absolutização de um mito se transforma em utopia ameaçando circunscrever-nos a uma esperança no fim de contas passiva», escreve, «impõe-se afirmar teorias da razão e da acção que devolvam ao homem a iniciativa, que afirmem a sua liberdade e confiram valor ao seu trabalho», ao seu sacrifício e à sua luta de todos os dias. O sebastianismo que lhe interessa não é o que espera pelo rei, é o que trabalha no que o rei simbolizava.
«Portugal, Razão e Mistério» é a obra maior, e o título é o método. O primeiro volume (1986) é «Uma Arqueologia da Tradição Portuguesa»: vai à origem do país e aos seus símbolos, da lenda atlântica ao Portugal templário. O segundo (1987) chama-se «O Projecto Áureo ou o Império do Espírito Santo», e é aqui que Quadros dá nome ao que este site inteiro persegue. O projecto áureo, na sua leitura, formula-se no reinado de D. Dinis e da Rainha Santa Isabel, com três gestos que lê como um só: o culto e as festas do Espírito Santo, que ainda hoje se celebram nos Açores e por onde os açorianos foram; o Estudo Geral, que é a universidade; e a Ordem de Cristo, em que os Templários se transformaram em vez de se extinguirem, e de que sairia, um século depois, o Infante D. Henrique. É a terceira idade de Joaquim de Fiore, a Era do Espírito Santo, a ganhar corpo numa política; e é essa a linha que ele segue depois por Vieira, por Pessoa e por Agostinho da Silva, em quem viu o profeta do Quinto Império. Um terceiro volume, «O Cálice da Última Tule», ficou incompleto e só saiu com a reedição da trilogia, depois da sua morte.
O que Quadros entende por projecto áureo não é um passado a recuperar, é uma relação a refazer: a relação entre aquilo que um país é e aquilo para que existe. O patriotismo emocional, escreve, «por ser insuficiente, é muitas vezes manipulado por ideólogos e demagogos de má fé»; o que se perdeu foi outra coisa, «a relação fundamental da substância e dos princípios da identidade pátria com a sua razão teleológica em movimento, relação que um dia corporizou no projecto áureo português [...] e que aguarda a reactivação ou a renovação sempre possíveis desde que se cumpram as imprescindíveis condições». Nos últimos livros, «A Ideia de Portugal na Literatura Portuguesa dos Últimos 100 Anos» (1989) e «Memórias das Origens, Saudades do Futuro» (1992), o Quinto Império deixa de ser sequer um império para ser uma quinta essência: «o Quinto Império como Quinta Essência, como Império do Espírito da Verdade e como Império da Filosofia».
O que Quadros te deixa é um mapa. Antes dele, o mito andava aos pedaços, cada estrela a brilhar por si; depois dele, há um desenho, com datas e razões, que se pode seguir ou discutir; e vale a pena lê-lo ao lado de Eduardo Lourenço, que olha para o mesmo mito com outra lente. O mistério não desaparece nesse desenho, e a razão não mente por causa dele: os dois lêem-se juntos, como um só destino, que não pertence a Portugal como propriedade mas como tarefa. E a tarefa, dizia ele com uma clareza que não envelheceu, aguarda a renovação sempre possível, desde que alguém se disponha a cumprir as condições. É o que ainda nos falta cumprir, posto em sistema.
Página em preparação. O texto parte de factos documentados (datas, filiação, formação, IADE, revistas, títulos e anos das obras) e de citações verificadas em estudos académicos com indicação de volume e página; a selecção final e a leitura do projecto áureo aguardam a validação do curador.
Citações
«Quando a absolutização de um mito se transforma em utopia ameaçando circunscrever-nos a uma esperança no fim de contas passiva, impõe-se afirmar teorias da razão e da acção que devolvam ao homem a iniciativa, que afirmem a sua liberdade e confiram valor ao seu trabalho, ao seu sacrifício, à sua luta quotidiana para se elevar acima da situação de crise ou retrocesso dentro da qual estiola [...]»
«O que na realidade se esbateu ou desapareceu quase por completo entre nós não foi o patriotismo emocional que, por ser insuficiente, é muitas vezes manipulado por ideólogos e demagogos de má fé, foi a relação fundamental da substância e dos princípios da identidade pátria com a sua razão teleológica em movimento, relação que um dia corporizou no projecto áureo português, centro vital e motor da tradição lusíada, e que aguarda a reactivação ou a renovação sempre possíveis desde que se cumpram as imprescindíveis condições.»
«Aqui, nesta terra gasta do extremo mais ocidental da Eurásia, está já enraizada no entanto a semente triádica do Império do amanhã, o Quinto Império como Quinta Essência, como Império do Espírito da Verdade e como Império da Filosofia, segundo o magistério, ainda ocultado aos olhos da maioria, da arte portuguesa de filosofar.»
Constelação local
Estas são as estrelas mais próximas de António Quadros no céu do Quinto Império.