
1857–1915
em revisãoSampaio Bruno
«O Encoberto» (1904): o mito passado, pela primeira vez, ao crivo da filosofia.
Quem foi Sampaio Bruno? O filósofo do Porto que levou o Encoberto da profecia para a filosofia e concluiu, em «O Encoberto» (1904), que o herói esperado não é um príncipe nem um povo, é o Homem. José Pereira de Sampaio, que assinou Bruno toda a vida, nasceu no Porto a 30 de Novembro de 1857 e morreu na mesma cidade a 11 de Novembro de 1915. Foi republicano de primeira hora e livre-pensador sem igreja: esteve entre os doutrinadores da revolta de 31 de Janeiro de 1891, a primeira tentativa republicana em Portugal, e pagou-a com dois anos de exílio em Paris, de onde trouxe as «Notas do Exílio» (1893). Em 1909 foi nomeado director da Biblioteca Pública Municipal do Porto, lugar que a República lhe confirmou e que manteve até morrer.
Antes de falar do Encoberto, Bruno precisou de falar de Deus. «A Ideia de Deus» (1902) é o seu livro de sistema: um Deus que não é o do catecismo nem o dos ateus, mas uma origem una, a que chama homogéneo, de que o mundo se afastou ao multiplicar-se em matéria e diferença, e para a qual toda a evolução caminha de regresso. O mal existe, e Bruno não o disfarça; a resposta que lhe dá é a acção: «O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres.» Convém guardar esta frase para ler o que veio a seguir, porque o Encoberto de Bruno é a mesma ideia posta em história.
«O Encoberto» (1904) é o resultado. Bruno lê tudo o que o mito tinha acumulado em quatro séculos: as «Trovas» do Bandarra e a paráfrase que D. João de Castro lhes fez, os processos do Santo Ofício, o messianismo judaico que passou por Lisboa no século XVI, o Encoberto de outras culturas e a sua ligação aos mitos de ressurreição. Mas não lê como historiador nem como devoto. Lê como quem quer saber o que uma esperança tão teimosa quer dizer por dentro. E a resposta chega nas últimas páginas, depois de quase quatrocentas de erudição: «Dissipe-se a nuvem que encobre o heroe. O heroe não é um principe predestinado. Não é mesmo um povo. É o Homem.» O Encoberto não é D. Sebastião, nem sequer Portugal: é a humanidade inteira, que ainda não chegou a si própria.
Daí o passo seguinte, o mais ousado do livro: «A fé será theorema; e o imperio não virá da conquista.» Onde Vieira tinha lido nas «Trovas» a promessa de um Quinto Império cristão de que Portugal seria instrumento, Bruno lê a promessa de uma humanidade reconciliada consigo mesma pela razão; o sebastianismo, escreve na página seguinte, coincide afinal com o filosofismo, e o poeta grandioso irmana com o mísero trovista. O verso do Bandarra que põe nas últimas páginas é «Fará Paz em todo o mundo», e a paz é, para ele, o nome laico da profecia. O que os antigos erraram foi o método, não o desejo: «Assim, o erro do Passado consistiu em suppôr a Unidade só possivel sob a Auctoridade. A gloria do Futuro será conseguir a Unidade na Liberdade.» É o Quinto Império sem imperador, quase um século antes de Agostinho da Silva o dizer com essas palavras: uma unidade que não se impõe a ninguém, cumpre-se com todos.
Foi este livro que Fernando Pessoa foi procurar. A 8 de Setembro de 1914, Pessoa escreve a Bruno a pedir-lhe orientação para estudar o sebastianismo; Bruno responde a apontar-lhe «O Encoberto», e o exemplar que Pessoa leu, sublinhado e anotado à mão, ainda existe na sua biblioteca. No ano seguinte, Pessoa manda-lhe o primeiro número do «Orpheu», e o velho filósofo, a poucos meses de morrer, responde a saudar «O Marinheiro» como revelação de um artista e de um pensador. Quando a «Mensagem» sair, em 1934, com o seu Encoberto que já não é rei nem mapa, está lá Bruno por baixo; como está em Teixeira de Pascoaes e nos homens d'«A Águia», que no Porto continuaram o seu gesto, e mais tarde na chamada Filosofia Portuguesa, de Álvaro Ribeiro a António Quadros, que o contou entre os seus inspiradores.
O que Bruno te deixa é uma libertação. Depois dele, já não é preciso esperar por ninguém para tomar o mito a sério: o Encoberto é uma ideia, e uma ideia carrega-se, discute-se, cumpre-se. Não pertence a um rei nem a um povo; pertence a quem se dispuser a libertar-se libertando os outros. Foi ele o primeiro a dizê-lo com todas as letras, no Porto, em 1904, e é por isso que a sua estrela fica exactamente a meio do céu: entre o sapateiro que sonhou e o poeta que depurou o sonho, o filósofo que lhe deu razão.
Página em preparação. O texto parte de factos documentados (datas de nascimento e morte, exílio de 1891–1893, direcção da Biblioteca do Porto, correspondência com Pessoa) e de citações verificadas na primeira edição de 1904 (exemplar anotado de Pessoa, Casa Fernando Pessoa) e em estudos académicos; a grafia das citações é a das edições originais. A selecção final aguarda a validação do curador.
Citações
«Dissipe-se a nuvem que encobre o heroe. O heroe não é um principe predestinado. Não é mesmo um povo. É o Homem.»
«A fé será theorema; e o imperio não virá da conquista. Não desanimemos, porque não nos illudamos.»
«Assim, o erro do Passado consistiu em suppôr a Unidade só possivel sob a Auctoridade. A gloria do Futuro será conseguir a Unidade na Liberdade.»
«O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres.»
Obras
Constelação local
Estas são as estrelas mais próximas de Sampaio Bruno no céu do Quinto Império.