
1877–1952
em revisãoTeixeira de Pascoaes
Fez da saudade uma religião: não pena do que foi, desejo do que falta.
Quem foi Teixeira de Pascoaes? O poeta que fez da saudade mais do que um sentimento: uma maneira portuguesa de estar no ser, feita ao mesmo tempo de lembrança e de desejo, e por isso virada para diante e não para trás. Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos nasceu em Amarante em Novembro de 1877 (o registo de baptismo diz dia 8; ele escolheu para si o dia 2, Dia dos Fiéis Defuntos, e foi essa a data que deixou nos livros) e morreu em Gatão, na mesma terra, a 14 de Dezembro de 1952. Tomou o nome do lugar, Pascoaes, e na prática nunca saiu da sombra do Marão: formou-se em Direito em Coimbra (1896–1901), advogou em Amarante e no Porto durante cerca de dez anos, e acabou por largar a toga para ficar com a montanha e com os versos.
Foi por essa altura que a sua vida privada se tornou um movimento. «A Águia» nascera no Porto em Dezembro de 1910; em 1912 passou a ser o órgão da Renascença Portuguesa, a sociedade em que Pascoaes se juntou a Leonardo Coimbra, a Jaime Cortesão e a outros para dar à República recém-nascida uma alma que a política não lhe dava, e Pascoaes dirigiu a revista de 1912 a 1916, os anos mais fecundos que ela teve. Na noite de 23 de Maio de 1912, no Ateneu Comercial do Porto, leu a conferência que serviu de manifesto ao saudosismo, e é aí que a palavra recebe a definição que ainda hoje usamos: «O desejo e a dôr fundidos n'um sentimento dão a Saudade.» O desejo é a parte pagã, carnal, solar; a dor é a parte cristã, espiritual, nocturna; e do casamento das duas nasce um sentimento novo, que ele considera a síntese própria da alma portuguesa e, ampliado à natureza inteira, uma religião.
Repara no que isto faz à saudade. Se ela fosse só lembrança, seria nostalgia, e a nostalgia olha para trás. Mas Pascoaes insiste na outra metade, e é a metade que importa a este site: «A Saudade pelo desejo (desejar é querer e querer é esperar), em virtude da propria natureza do desejo, é tambem a esperança.» A saudade que ele descreve deseja aquilo de que se lembra, e por isso projecta-o no futuro; é uma falta que aponta para diante. É esta a saudade de que este mito se alimenta: não a pena do que foi, o desejo do que falta. Pascoaes vai ao ponto de a pôr na origem do próprio Encoberto: foi ela, escreve, que nos dias de luto criou a misteriosa figura do rei ausente, e é ela, com a sua face de desejo e esperança, «a sombra do Encoberto amanhecida, dissipando o nevoeiro da legendaria manhã». O nevoeiro dissipa-se, note-se, não pelo regresso de um homem, mas pelo despertar de um sentimento.
Os livros seguiram o mesmo caminho. «Marânus» (1911) e «Regresso ao Paraíso» (1912) são os grandes poemas da fase saudosista; «A Arte de Ser Português» (1915) é a versão em prosa do programa: uma lição sobre a terra, a língua e a alma pátria, com as ideias de época e os excessos que o vocabulário de raça lhe trouxe, mas onde a saudade aparece analisada peça a peça, com Camões e Bernardim a testemunhar. «Os Poetas Lusíadas» (1919) fecha o ciclo militante. Depois vieram as grandes biografias, «São Paulo» (1934), «São Jerónimo» (1936), «Napoleão» (1940), «Santo Agostinho» (1945), que lhe valeram cinco nomeações para o Nobel entre 1942 e 1948.
Fernando Pessoa começou dentro d'«A Águia». Em 1912, com vinte e três anos, publicou lá os artigos sobre «A Nova Poesia Portuguesa» em que anunciava, a partir de Pascoaes e dos saudosistas, a vinda de um supra-Camões, um poeta maior do que o maior que Portugal tivera. Três anos depois, com o «Orpheu», tomou outro rumo e afastou-se do saudosismo, que tratou como uma estação do caminho e não como destino. Mas o afastamento não foi ruptura de raiz: o supra-Camões acabou por ser ele próprio, e a «Mensagem» pode ler-se com a saudade para que Pascoaes ensinara a olhar, a do desejo do que falta. Muito mais tarde, Eduardo Lourenço havia de pegar na mesma palavra em «O Labirinto da Saudade» e ensinar-nos a distinguir, dentro dela, a esperança da armadilha; e António Quadros contou-o, com Sampaio Bruno e Leonardo Coimbra, entre os inspiradores da Filosofia Portuguesa.
O que Pascoaes te deixa é uma correcção de sentido. A saudade não é o museu de um povo, é o seu motor: lembra-se para desejar, e deseja para fazer. Lida assim, a palavra intraduzível deixa de ser um privilégio de quem nasceu aqui e passa a ser um método ao alcance de qualquer pessoa, em qualquer língua, que tenha uma falta a cumprir. É por isso que a sua estrela fica ao lado da de Bruno e à frente da de Pessoa: entre o filósofo que fez do Encoberto uma ideia e o poeta que o fez símbolo, o homem do Marão que lhe deu o combustível.
Página em preparação. O texto parte de factos documentados (datas, Coimbra, «A Águia» e a Renascença Portuguesa, conferência de 23 de Maio de 1912, artigos de Pessoa de 1912, nomeações para o Nobel) e de citações verificadas nas edições originais de 1912 (Internet Archive) e de 1915 (Biblioteca Nacional Digital); a grafia das citações é a das edições originais. A selecção final aguarda a validação do curador.
Citações
«O desejo e a dôr fundidos n'um sentimento dão a Saudade.»
«O desejo é a parte sensual e alegre da Saudade, e a lembrança representa a sua face espiritual e dolorida, porque a lembrança inclue a ausencia d'uma cousa ou d'um sêr amado que adquire presença espiritual em nós.»
«A Saudade pelo desejo (desejar é querer e querer é esperar), em virtude da propria natureza do desejo, é tambem a esperança, assim como é lembrança pela dôr. Pela esperança e pelo desejo, a Saudade é Venus; pela dôr e pela lembrança, é a Virgem Dolorosa.»
«E a Saudade, com a sua face de desejo e esperança, é já a sombra do Encoberto amanhecida, dissipando o nevoeiro da legendaria manhã.»
Constelação local
Estas são as estrelas mais próximas de Teixeira de Pascoaes no céu do Quinto Império.