Teixeira de Pascoaes é poeta, mas quando escreve «A Arte de Ser Português» em 1915 está a fazer filosofia. Não diz: português é aquele que nasceu em Portugal e tem sangue português. Diz: português é aquele que entra numa vocação, que se faz português pelo acto de compreender que existe uma tarefa específica, uma maneira particular de estar no mundo.
O livro é pequeno em páginas, imenso em consequências. Pascoaes argumenta que o português foi sempre um povo de saudade, de espera, de incompletude — não como defeito, mas como capacidade de ver além. A saudade não é melancolia: é o sinal de que a alma portuguesa conhece que há algo que ainda falta cumprir. Por isso o português é melhor filósofo que conquistador, melhor poeta que soldado. O Quinto Império pede um português que saiba renunciar à glória histórica para alcançar a glória escatológica.
Pascoaes escreve enquanto Portugal se desmorona politicamente. A República nasce perto, a Monarquia cai, a nação parece perdida. Mas para Pascoaes é precisamente aí que Portugal pode encontrar-se: quando abandona a ambição de potência e aceita a sua verdadeira função — ser guardião de uma palavra espiritual que o mundo ainda necessita ouvir.
