
1884–1960
em revisãoJaime Cortesão
O humanismo universalista: os Descobrimentos como obra de conhecimento e de encontro, não de conquista.
Quem foi Jaime Cortesão? O médico, poeta e historiador que leu os Descobrimentos como uma obra de conhecimento e de encontro, feita por gente anónima ao longo de séculos, e não como a conquista de meia dúzia de reis e capitães. Nasceu em Ançã, no concelho de Cantanhede, a 29 de Abril de 1884, e morreu em Lisboa a 14 de Agosto de 1960. Frequentou Direito em Coimbra e Medicina no Porto antes de se formar na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, em 1910, o ano em que a República chegou e em que ele publicou o primeiro livro de versos, «A Morte da Águia». Exerceu pouco a clínica: o que queria era a acção pela palavra.
Encontrou-a no Porto, na Renascença Portuguesa, o movimento que em 1912 juntou Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra, Álvaro Pinto e ele próprio em torno da segunda série da revista «A Águia»; Cortesão dirigiu-lhe o boletim, «A Vida Portuguesa» (1912–1915). Pascoaes trazia o saudosismo; Cortesão trazia a história, e a convicção de que um povo só se renova quando reaprende a olhar para o que fez. Em Janeiro de 1913 um jovem Fernando Pessoa escreveu-lhe uma longa carta a elogiar-lhe a poesia. Foi também então que encontrou a figura que lhe havia de ocupar a vida: o Infante D. Henrique, herói do drama em verso «O Infante de Sagres», levado à cena em 1916. Décadas mais tarde reconheceria que a vocação de historiador lhe despertara ali, no teatro, e definir-se-ia como «poeta de acção, pronto sempre a exaltar o homem heróico e a transformar, por esse modelo, a ideia em acto».
A Grande Guerra levou-o, voluntário, como médico à Flandres, e dela trouxe as «Memórias da Grande Guerra» (1919). Nesse ano tomou a direcção da Biblioteca Nacional, que manteve até 1927, e à volta dela reuniu o grupo de que nasceu, em 1921, a «Seara Nova», com Raul Proença. Foi ali, já com trinta e oito anos, que se fez historiador de ofício: «A Expedição de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil» (1922) é o primeiro trabalho de arquivo. A ditadura cortou-lhe o caminho. Participou na revolta de Fevereiro de 1927, foi demitido e partiu para um exílio de trinta anos: França e Espanha até 1940; prisão em Peniche e no Aljube quando a invasão alemã o obrigou a regressar; e depois o Brasil, de 1940 a 1957, onde ensinou no Instituto Rio Branco (1944–1950), organizou a exposição histórica do IV Centenário de São Paulo (1954) e escreveu as suas obras maiores. Voltou em 1957 e ainda foi preso em 1958, com setenta e quatro anos, por se ter posto ao lado da candidatura de Humberto Delgado. Morreu dois anos depois.
A tese que o tornou mestre cabe em oitenta páginas: «Os Factores Democráticos na Formação de Portugal», publicado em 1930 no primeiro volume da «História do Regime Republicano em Portugal». Cortesão procura a nação não nos reis mas nas comunas, nas burguesias dos portos, na «criação anónima e colectiva» a que os «longos anos passados nos arquivos» o tinham ensinado a dar importância crescente. A revolução de 1383 é o momento em que «Portugal entra na maioridade» e o Estado atinge a forma que lhe permite «resolver o grande problema da expansão da Europa e do conhecimento do planeta». Repara na palavra: conhecimento. Os Descobrimentos, nele, não são uma cruzada nem uma corrida ao ouro; são a primeira grande empresa científica da Europa moderna, feita de cartas, de pilotos e de experiência. É a ideia que a «Teoria Geral dos Descobrimentos Portugueses» (1940) desenvolve, com a geografia e a economia como chaves, e que os livros do exílio levam até ao fim: «Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid» (1950–1956), «Os Descobrimentos Portugueses» (1960–1962), que a morte deixou incompletos, e dois volumes póstumos de 1965, «A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino» e «O Humanismo Universalista dos Portugueses».
Convém ser claro sobre o que Cortesão não fez: não escreveu sobre o Quinto Império nem sobre o sebastianismo como tema próprio, e as trovas do Bandarra aparecem-lhe, num artigo de 1912 em «A Águia», entre as legendas com que o povo idealiza a sua história. A sua ligação a esta constelação é outra, e é mais funda. Em 1932 publicou na «Seara Nova» «O Franciscanismo e a Mística dos Descobrimentos»; e em «Os Descobrimentos Portugueses» desenvolveu a ideia de que o culto do Espírito Santo, o Paráclito, foi o impulso subterrâneo da expansão. É a corrente que vem de Joaquim de Fiore e que alimenta a Era do Espírito Santo: a de uma terceira idade do mundo em que os povos se encontram. Cortesão chega-lhe pela história, sem profecia, e é isso que o torna indispensável. Se o Quinto Império é, como esta casa o lê, um império do Espírito, Cortesão mostra-o a acontecer na prática: nos mapas que ninguém assinou, nas rotas que abriram o planeta ao conhecimento de todos.
O humanismo universalista do título póstumo é a sua herança, e não é uma glória a guardar: é uma tarefa, a de um povo que, tendo posto o mundo em contacto consigo mesmo, tem agora de o fazer sem dono e sem conquista. Cortesão escreveu-o do exílio, «doente de saudade», sem se vergar a nenhuma ditadura, e lembrou aos portugueses que a democracia, entre eles, é mais antiga do que os reis. Onde Eduardo Lourenço veria mais tarde a imagem que Portugal faz de si, Cortesão viu o trabalho concreto que a sustenta. É esse o Cortesão desta casa: o historiador que nos ensina que o encontro dos povos já aconteceu uma vez, por mãos anónimas, e que o que ainda nos falta cumprir é fazê-lo de novo, de todos, todos, todos.
Página em preparação. O texto parte de factos documentados (Dicionário de Historiadores Portugueses da BNP, Instituto Camões, modernismo.pt) e de citações conferidas nessas fontes; a leitura do culto do Espírito Santo em «Os Descobrimentos Portugueses» e a selecção final aguardam a validação do curador.
Citações
«Portugal entra na maioridade; na sua política interior dominam as tendências laicistas e civilistas, condição essencial para a dignificação e liberdade dos povos; e o Estado atinge a forma de organização que lhe permite resolver o grande problema da expansão da Europa e do conhecimento do planeta.»
«Longos anos passados nos arquivos, quer nos portugueses quer nos estrangeiros, levaram-nos a dar uma importância crescente à criação anónima e colectiva.»
«poeta de acção, pronto sempre a exaltar o homem heróico e a transformar, por esse modelo, a ideia em acto.»
Constelação local
Estas são as estrelas mais próximas de Jaime Cortesão no céu do Quinto Império.