O Quinto Império
Joaquim de Fiore, gravura a ouro sobre azul-nocturno.

c. 1135–1202

em revisão

Joaquim de Fiore

Dividiu a história em três idades; a terceira, a do Espírito, ainda não chegou, e é dela que este mito inteiro se alimenta.

Quem foi Joaquim de Fiore? Um abade calabrês do século XII que ousou ler dentro da história o desenho de Deus. Nasceu por volta de 1135 em Celico, na Calábria, e morreu em 1202, na mesma terra. Foi monge cisterciense e abade de Corazzo, e a certa altura largou a administração para se dar à contemplação: dessa retirada nasceu, nas montanhas da Sila, o mosteiro de San Giovanni in Fiore e uma nova e mais austera ordem, aprovada por Roma ainda em vida dele. Não deixou um império nem uma corte. Deixou uma ideia que, oito séculos depois, ainda não parou de crescer.

O que ensinou Joaquim de Fiore? Que a história tem três idades, e que a melhor está por vir. Cada idade corresponde a uma pessoa da Trindade. A idade do Pai é a do Antigo Testamento: o tempo da Lei, do temor e da obediência, em que o homem serve Deus como servo. A idade do Filho é a do Evangelho e da Igreja: o tempo da graça e da fé, em que o homem passa a viver como filho. E há uma terceira, a idade do Espírito Santo: o tempo da liberdade e do amor, em que a verdade já não se impõe de fora mas se compreende por dentro, e a estrutura hierárquica dá lugar a uma Igreja espiritual. Joaquim calculou-a por gerações e esperava-a próxima; a tradição joaquimita viria a fixá-la por volta de 1260. É esta a semente de tudo: a certeza de que o melhor da história ainda não aconteceu.

Não foi um herege. Submeteu os seus escritos ao Papa, e a Calábria venerou-o como beato. Mas a sua leitura da Trindade foi condenada no IV Concílio de Latrão, em 1215, treze anos depois da sua morte. A doutrina das três idades, essa, escapou a todas as condenações e seguiu viagem: mapeou-a ele próprio na «Concordia do Novo e do Antigo Testamento» e na «Expositio in Apocalypsim», com diagramas que ficaram célebres. Dante colocou-o no «Paraíso» da «Divina Comédia» e chamou-lhe alguém «de espírito profético dotado».

Como chega esta esperança a Portugal? Por dois caminhos, um de ideias e outro de festa. O primeiro são os franciscanos espirituais: frades que, no século XIII, pegaram na terceira idade de Joaquim e a ligaram ao ideal de pobreza absoluta e a uma Igreja sem poder. Foram perseguidos e condenados, mas as suas ideias não morreram; correram a Península e chegaram a um reino jovem no extremo do mundo. O segundo caminho é popular e ainda hoje se vê. É a tradição que atribui à Rainha Santa Isabel de Aragão a introdução, no início do século XIV, das festas do Império do Espírito Santo, com o primeiro registo documentado em Alenquer. Nelas, um homem comum, muitas vezes uma criança, é coroado «imperador do Espírito Santo» por alguns dias: uma coroa que reina sem rei, precisamente a Igreja do Espírito que Joaquim anunciara, feita festa de rua.

Aqui é preciso rigor. Que Isabel promoveu estas festas é o que a tradição afirma e alguns documentos sustentam; que elas descendam directamente de Joaquim, através dos franciscanos, é hipótese dos historiadores, não facto provado. As origens exactas do culto não são inteiramente conhecidas. Seguro é o resultado: das festas de Alenquer, o Império do Espírito Santo espalhou-se por Portugal e, sobretudo, pelos Açores, que se tornaram o último e mais fiel reduto desta esperança. A coroa sem rei atravessou o Atlântico e ainda hoje se coroa, dos Açores ao Brasil.

Porque é Joaquim a estrela-raiz desta constelação? Porque é dele que nasce o nome e a forma de tudo o que aqui se conta. O Quinto Império português tem duas faces: a erudita, do sebastianismo e da profecia, e a popular, das festas do Espírito Santo. As duas bebem da mesma fonte: a ideia de uma última idade do mundo que não é de conquista, mas de Espírito. Quando o Padre António Vieira anunciar um Quinto Império do Espírito, e quando Agostinho da Silva fizer da Era do Espírito Santo um programa de vida, estarão a dizer, em português e séculos depois, o que um abade italiano viu primeiro. Toda a constelação gira à volta desta estrela. É por aqui que se começa.

Página em preparação. O texto acima parte de factos estabelecidos e distingue o que é história documentada do que é tradição; a selecção de citações aguarda a validação do curador.

Constelação local

Estas são as estrelas mais próximas de Joaquim de Fiore no céu do Quinto Império.

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