O Quinto Império

Obra

em revisão

O Espírito Lusitano ou o Saudosismo

Teixeira de Pascoaes1912

domínio público

«O Espírito Lusitano ou o Saudosismo» é o manifesto do saudosismo. Teixeira de Pascoaes leu-o na noite de 23 de Maio de 1912, no Ateneu Comercial do Porto, em nome da Renascença Portuguesa, a sociedade que acabava de nascer à volta d'«A Águia» e que o publicou nesse ano. Pascoaes avisa logo que o assunto pedia um grosso volume; o que oferece é o essencial, dito por quem, nas suas palavras, sente as coisas mais do que as demonstra.

O centro é uma definição. A saudade é o desejo de uma coisa ou de uma criatura amada, tornado dolorido pela ausência; «o desejo e a dôr fundidos n'um sentimento dão a Saudade». O desejo é a metade pagã e carnal, que Pascoaes faz descender de Vénus; a dor é a metade cristã e espiritual, a Virgem Dolorosa; da fusão das duas nasce um sentimento novo, que ele lê como a síntese própria da alma portuguesa e, ampliado à natureza, como uma religião. Porque o desejo é esperança, a saudade olha para diante: é isto que a separa da nostalgia e faz dela o combustível do que ainda falta cumprir.

O resto é uma genealogia. Pascoaes vai buscar a definição antiga de Duarte Nunes de Leão, a saudade como lembrança de uma coisa com desejo dela, e a de Garrett; passa por Bernardim e por Camões, que sozinho faz uma época; e atribui à saudade os grandes gestos da história, das naus ao Encoberto, que ela teria criado nos seus dias de luto. O vocabulário de raça é do seu tempo e lê-se com distância. O que fica é a ideia: um povo que aprende a desejar o que lhe falta abre uma nova era. Três anos depois, «A Arte de Ser Português» fez desta conferência um livro.