O Quinto Império
Dalila Pereira da Costa, gravura a ouro sobre azul-nocturno.

1918–2012

em revisão

Dalila Pereira da Costa

«A Nau e o Graal»: a mística portuguesa lida por dentro.

Quem foi Dalila Pereira da Costa? A ensaísta do Porto que leu a mística portuguesa por dentro, como quem a viveu, e que viu no Quinto Império não um trono por vir mas uma arte de união com Deus, alargada a toda a humanidade. Nasceu no Porto a 4 de Março de 1918 e morreu na mesma cidade a 2 de Março de 2012, dois dias antes de completar noventa e quatro anos. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas em Coimbra, em 1944, aluna de Joaquim de Carvalho, de Damião Peres e de Torquato de Sousa Soares; viveu em São Paulo entre 1959 e 1965, passou dois anos na Bélgica e regressou ao Porto, à casa com jardim e à quinta do Douro onde escreveu quase tudo o que deixou.

Publicou o primeiro livro depois dos cinquenta anos. «O Esoterismo de Fernando Pessoa» (1971) abriu um caminho que poucos tinham pisado; «A Força do Mundo» (1972) contou, na primeira pessoa, as experiências místicas que a atravessaram desde a Primavera de 1938, em Coimbra, aos vinte anos. Convém guardar isto para a ler bem: tudo o que escreveu sobre Portugal foi escrito por alguém que falava da união com Deus por experiência própria, e não por ofício. Seguiram-se, quase sempre na Lello do Porto, «Introdução à Saudade» (1976, com Pinharanda Gomes), «A Nau e o Graal» (1978), «Os Jardins da Alvorada» (1981), «Da Serpente à Imaculada» (1984), «Místicos Portugueses do Século XVI» (1986), «Gil Vicente e sua Época» (1989), «Corografia Sagrada» (1993), «D. Sebastião, El-Rei Ungido, Rei Eleito» (1996) e «Portugal Renascido» (2001). Pertenceu ao grupo da Filosofia Portuguesa, de Álvaro Ribeiro e José Marinho, ao lado de António Quadros, que viu nela a rara junção de uma inteligência hermenêutica com o saber de experiência feito de quem é, ela própria, uma mística.

O Quinto Império como arte de união

Para Dalila, o Quinto Império não é uma data nem um mapa: é o ponto em que a mística portuguesa se consuma. A profecia de Bandarra, a saudade de Pascoaes, o messianismo de Vieira são, na sua leitura, formas sucessivas de uma mesma técnica de salvação, «espectante e futurante, a fazer-se nos séculos», que só se completa quando «se der essa união última do homem português com Deus, alargada a toda a humanidade da terra, como divinização universal». Repara na última cláusula: alargada a toda a humanidade. O império que ela lê nos místicos de quinhentos não fecha fronteira nenhuma; é de todos, todos, todos, e Portugal entra nele como quem entra numa ordem religiosa, pela porta do serviço.

Foi por isso que leu o Espírito Santo como centro secreto da cultura portuguesa, e leu-o sem partir nada. Em «A Nau e o Graal» imagina as três igrejas cristãs há tanto desunidas (a do Norte, a do Oriente, a do Sul) a reencontrarem-se numa só, quando «a intuição se unirá à autoridade, ou S. João a S. Pedro». É a velha figura de Joaquim de Fiore, a igreja de João a suceder à de Pedro, mas dita ao contrário do costume: não como ruptura, como reconciliação. A Era do Espírito Santo não vem destruir a autoridade; vem casá-la com a intuição.

A nau e o graal, a serpente e a Imaculada

Os títulos dela são programas. A nau é a das descobertas, a de Camões, a que conheceu a terra; o graal é a taça da demanda, a que ainda falta encontrar. Dalila leu a primeira viagem como rascunho de uma segunda, espiritual, e chamou-lhe, com Pessoa, a nova Descoberta: aquela perante a qual a primeira não teria passado de ensaio. Em «Da Serpente à Imaculada» seguiu o fio feminino dessa tradição, das deusas antigas e das mouras encantadas das lendas até à Virgem, e viu nele a memória de uma harmonia perdida entre terra e céu que a saudade portuguesa não deixa esquecer: saudade que, para ela, não é pena do que foi, é desejo do que falta. Leu tudo isto com Plotino e o Pseudo-Dionísio, com Eliade e Corbin, com Guénon, com os sufis e os celtas, e por isso lhe chamaram mística ecuménica: a que encontra em cada tradição um raio da mesma luz.

A amiga de Agostinho da Silva

Agostinho da Silva foi um dos grandes amigos e inspiradores de Dalila, e é por isso que a estrela dela está ao lado da dele nesta carta. Peregrinaram juntos ao Convento da Arrábida; ela dedicou-lhe, pela própria mão, os «Místicos Portugueses do Século XVI» em 1986 e a «Corografia Sagrada» em 1993, «ao Amigo Agostinho da Silva». E em Setembro de 2006, para o centenário dele, escreveu «Agostinho da Silva: Um Filósofo Pedagogo e uma Teocracia», onde o coloca na linha de Bandarra e de Vieira como o último elo, e o mais praticável, da esperança messiânica portuguesa: o do Reino do Espírito Santo anunciado como obra de fraternidade universal, «partilha do Espírito Santo; futuro nascer de uma humanidade e de um mundo». Os anos de São Paulo tinham-lhe ensinado o resto: que essa mensagem já não cabia em Portugal, e que o Brasil, com a sabedoria unida de índios, pretos e brancos, podia ser quem a levasse mais longe.

É este o lugar dela na constelação: entre o filósofo que fez do Quinto Império um programa de vida e os místicos de quinhentos que ela leu por dentro, Dalila é a voz que lembra que o império do Espírito não se decreta, une-se. O que ainda nos falta cumprir não é uma conquista; é uma descoberta, a segunda, e essa faz-se de dentro para fora.

Página em preparação. O texto parte de factos documentados (datas, bibliografia, dedicatórias e o ensaio de 2006 sobre Agostinho da Silva) e de citações verificadas na fonte; a leitura de conjunto de «A Nau e o Graal» e o retrato aguardam a validação do curador.

Citações

«à profecia, saudade, messianismo e suas formas escatológicas, a mística se apresentará entre os portugueses como técnica de salvação, espectante e futurante, a fazer-se nos séculos e assumindo posterior e final forma ecuménica, tendo sua consumação no advento do Quinto Império – quando se der essa união última do homem português com Deus, alargada a toda a humanidade da terra, como divinização universal. Assim o Quinto Império trará em si, no seu carácter messiânico e profético, um forte acento místico: como arte de união com Deus»
Dalila Pereira da Costa · «Místicos Portugueses do Século XVI» (1986), p. 171, cit. in Joaquim da Silva Teixeira, «Revista de Espiritualidade», n.º 30 (2000)
«Também assim se unirão e transcenderão, as três igrejas cristãs longamente desunidas: a do Norte, pelo conhecimento e interpretação individual das verdades divinas reveladas; a do Oriente, pela proeminência e exaltação do Espírito Santo; a do Sul, pela proeminência da autoridade. E a partir de então a intuição se unirá à autoridade, ou S. João a S. Pedro.»
Dalila Pereira da Costa · «A Nau e o Graal» (1978), p. 27, cit. in «Revista de Espiritualidade», n.º 30 (2000)
«Entre ambos os extremos do Continente, das terras do sol nascente e das terras do sol poente, nasceu o cristianismo. A força maior de amor jamais vinda sobre a terra.»
Dalila Pereira da Costa · «A Nau e o Graal» (1978), p. 28, cit. in «Revista de Espiritualidade», n.º 30 (2000)
«E essa futura descoberta surgindo para seus profetas, como algo que faltava ainda cumprir; não no sentido natural, como a primeira, mas no sentido espiritual; nova Descoberta, perante a qual, no dizer de Pessoa, a primeira não teria sido mais do que um ante-arremedo carnal. Nova Descoberta na qual os filósofos poetas da Renascença Portuguesa, como Agostinho da Silva, depositaram toda sua esperança: como obra de fraternidade racial e universal, partilha do Espírito Santo; futuro nascer de uma humanidade e de um mundo.»
Dalila Pereira da Costa · «Agostinho da Silva: Um Filósofo Pedagogo e uma Teocracia», «Revista Convergência Lusíada», n.º 23 (2007)

Constelação local

Estas são as estrelas mais próximas de Dalila Pereira da Costa no céu do Quinto Império.

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