O Quinto Império

Obra

em revisão

Sodoma Divinizada

publicada primeiro como «Sodoma Divinizada (Leves Reflexões Teometafísicas sobre um Artigo)»

Raul Leal1923

«Sodoma Divinizada» é um folheto pequeno com um destino grande. Raul Leal escreveu-o em resposta a um artigo de Álvaro Maia na revista «Contemporânea», que atacava as «Canções» de António Botto e o ideal estético defendido por Fernando Pessoa; a Olisipo, a editora de Pessoa, publicou-o em Fevereiro de 1923, numa tiragem de trezentos e cinquenta exemplares. O subtítulo, «Leves Reflexões Teometafísicas sobre um Artigo», engana pela modéstia: o que Leal faz é levar a sua doutrina da Vertigem até à última consequência.

A tese é esta. Deus é o Infinito, e o Infinito não conhece limites; a Razão, que tudo delimita, é por isso herética. Tudo o que mergulha no infinito de Deus é impreciso, incerto, vertígico, e «a Vertigem é sagrada, é divina». A luxúria, e a homossexualidade dentro dela, são para Leal formas dessa Vertigem: manifestações de Deus na carne, condenáveis apenas quando vividas sem espírito. Sodoma, diz ele, foi castigada não pelo que fazia, mas por o fazer sem Deus. O folheto termina a pedir templos onde o desejo tome feição litúrgica e «a divinização de Sodoma» se estabeleça pelo Verbo e pelo Espírito Santo.

A resposta não tardou. Nos primeiros dias de Março de 1923, a pedido da Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, o governador civil mandou apreender o livro, com o de Botto. Seguiram-se os panfletos: o «Aviso por Causa da Moral» de Álvaro de Campos, «Uma Lição de Moral aos Estudantes de Lisboa» do próprio Leal, um manifesto estudantil que o dava por louco, e «Sobre um Manifesto de Estudantes», em que Pessoa, com o seu nome, o defendeu. Para esta casa, o livro importa menos pelo escândalo do que pelo que revela: a Era do Espírito Santo pensada por quem a levou à vertigem.