
1886–1964
em revisãoRaul Leal
O místico do futurismo português: o império levado à vertigem.
Quem foi Raul Leal? O filósofo místico do «Orpheu» que levou a ideia de império até à vertigem: para ele o Quinto Império não era um reino a esperar, era a era do Paracleto, o Espírito Santo, em que o mundo inteiro se divinizaria. Nasceu em Lisboa em 1886, formou-se em Direito em Coimbra em 1909 e depressa abandonou a carreira jurídica, de que dizia ter «nojo», para se entregar ao que chamava a sua Obra. Em «A Liberdade Transcendente» (1913) definiu pela primeira vez o conceito que o acompanhou toda a vida: a Vertigem, o movimento pelo qual as coisas, mergulhadas no infinito de Deus, se tornam imprecisas, incertas, sem limite. Viveu em Paris como dândi, conheceu Marinetti e escreveu-lhe a propor a fundação de uma Igreja Paraclética; monárquico, ou antes teocrático, foi exilado em Espanha em 1915 e passou quatro anos de miséria em Madrid, a estudar metafísica na biblioteca e a passar fome, como ele próprio contou.
No segundo número do «Orpheu», em 1915, publicou «Atelier», a que chamou novela vertígica; no mesmo ano distribuiu pelos cafés de Lisboa o manifesto «O Bando Sinistro», e em 1917 assinou em «Portugal Futurista» um texto em francês sobre o abstraccionismo futurista. A sua obra mais ambiciosa saiu também em francês: «Antéchrist et la Gloire du Saint-Esprit», hino-poema sagrado datado de 1918 e publicado em 1920 como primeiro volume de «Le Dernier Testament». Assinava Henoch, o patriarca que a Bíblia diz ter sido levado por Deus sem morrer, e via-se como precursor do Paracleto. A doutrina é simples de enunciar e vertiginosa de seguir: o reino de Cristo acabou; desde a Renascença vivemos o império do Anticristo; falta a terceira era, a do Espírito Santo, em que Deus deixará de estar fora do mundo para se manifestar nele. É a tríade de Joaquim de Fiore levada ao extremo, e é a Era do Espírito Santo desta casa lida por um místico sem igreja.
Em Fevereiro de 1923 a Olisipo, a editora de Fernando Pessoa, publicou «Sodoma Divinizada»: trezentos e cinquenta exemplares de um folheto escrito em resposta a um artigo de Álvaro Maia contra as «Canções» de António Botto. Leal fez ali o que ninguém se atrevera a fazer: defendeu a luxúria, e a homossexualidade, como caminhos de Deus, porque «a Vertigem é sagrada, é divina». Nos primeiros dias de Março o governador civil de Lisboa mandou apreender o livro, com o de Botto, por pressão da Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, chefiada por Pedro Teotónio Pereira. Pessoa respondeu, como Álvaro de Campos, com o «Aviso por Causa da Moral»; Leal respondeu com «Uma Lição de Moral aos Estudantes de Lisboa e o Descaramento da Igreja Católica», onde acusou a Igreja de dirigir a campanha «na sombra». Os estudantes replicaram com um manifesto que o dava por louco, e foi então que Pessoa, já com o seu próprio nome, escreveu «Sobre um Manifesto de Estudantes» em defesa do «altissimo espirito, e o não menos alto caracter, do dr. Raul Leal». No meio da tempestade, Leal escreveu a frase que melhor o define: «Não quero demolir por demolir: quero demolir para crear».
Depois do escândalo continuou a escrever, quase sempre para poucos: «A Loucura Universal» na «Athena» (1924), a revista de Pessoa; «A Criação do Futuro» na «presença» (1927); «Super-Estado» na «Sudoeste» de Almada Negreiros (1935). Em Julho de 1936, sete meses depois da morte de Pessoa, publicou na «presença» «Na Glória de Deus», primeiro capítulo de um livro que nunca acabou e cujo título diz tudo: «Fernando Pessoa, Precursor do Quinto Império». Para Leal, a «Mensagem» não era um livro de história simbólica: era profecia, e Pessoa o anunciador da era do Paracleto. O seu último livro, «Sindicalismo Personalista: Plano de Salvação do Mundo», é de 1960. Morreu em Lisboa em 1964.
Que leitura do Quinto Império fica de tudo isto? A mais extrema da constelação, e por isso a mais útil para medir as outras. Onde Vieira construiu uma teologia da história com contas e datas, e Pessoa depurou o mito até ao símbolo, Leal dissolveu-o na Vertigem: o império do Espírito não é um reino com fronteiras, nem sequer uma nação, é um estado em que a matéria e o espírito deixam de se distinguir e tudo transpira Deus. Nenhuma sociedade, escreveu no panfleto de 1923, sabe ao certo o que é a sua organização, porque tudo está em devir; o estadista que a quiser fixar em chapas rígidas trabalha contra a vida. O Encoberto, nesta leitura, não é um rei nem uma data: é o Paracleto, o Espírito que ainda não desceu de todo.
Não precisas de o seguir até lá para perceber o que ele te deixa. Raul Leal é a prova de que o Quinto Império, levado a sério até ao fim, não cabe em nenhum império: quem o pensa em toda a sua consequência acaba por falar de um mundo, não de um país, e de uma criação, não de uma conquista. «O Futuro terá que ser uma creação», escreveu aos estudantes que lhe queimavam os livros, e é essa a lição que sobrevive à teologia excêntrica e à loucura de que o acusaram: o que ainda nos falta cumprir não se herda nem se espera, cria-se. E cria-se para todos, porque a Vertigem, como Deus, não conhece fronteiras.
Página em preparação. O texto parte de factos documentados (modernismo.pt, Geração de Orpheu da NOVA, José Barreto in «Pessoa Plural», 2012) e de citações conferidas em «Sodoma Divinizada» e nos panfletos de 1923; as datas exactas de nascimento e morte divergem entre fontes e ficaram no ano; a selecção final aguarda a validação do curador.
Citações
«E é por mergulharem no infinito de Deus que as cousas são imprecisas, incertas, vertígicas. Logo a Vertigem é sagrada, é divina.»
«Tudo na vida é indefinivel, incerto, vertigico; a Vertigem, suprema Indecisão das cousas, é d'estas a natureza essencial.»
«Não quero demolir por demolir: quero demolir para crear!»
«Pelos estudantes possúo a maior sympathia pois a elles compete crear o Futuro para que constantemente vivo. E o Futuro terá que ser uma creação, não podendo ser o que vagamente existe ainda e está a desconjunctar-se.»
Constelação local
Estas são as estrelas mais próximas de Raul Leal no céu do Quinto Império.