
1919–2004
em revisãoSophia de Mello Breyner
A poesia como reintegração: dizer o nome exacto das coisas.
Quem foi Sophia de Mello Breyner Andresen? A poeta portuguesa do século XX que fez da exactidão uma ética: dizer o nome das coisas, sem enfeite nem mentira, como quem restitui o mundo à sua inteireza. Nasceu no Porto a 6 de Novembro de 1919, estudou Filologia Clássica em Lisboa sem terminar o curso, publicou o primeiro livro, «Poesia», em 1944, casou em 1946 com o jornalista Francisco Sousa Tavares e morreu em Lisboa a 2 de Julho de 2004. Dez anos depois, no mesmo dia, foi trasladada para o Panteão Nacional.
Entre esses dois pontos ficam catorze livros de poesia, que se lêem como uma única frase longa: «Dia do Mar» (1947), «Coral» (1950), «No Tempo Dividido» (1954), «Mar Novo» (1958), «Livro Sexto» (1962), que lhe valeu em 1964 o Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores, «Geografia» (1967), «Dual» (1972), «O Nome das Coisas» (1977), «Navegações» (1983), «Ilhas» (1989), «O Búzio de Cós» (1997). Em 1999 foi a primeira mulher portuguesa a receber o Prémio Camões; em 2003 recebeu o Prémio Rainha Sofia. E em 1975, no ano em que o país aprendia a votar, sentou-se na Assembleia Constituinte, eleita pelo Porto nas listas do Partido Socialista.
O que ela pensava da poesia está nas cinco «Artes Poéticas» que foi escrevendo entre 1962 e 1989, e nenhuma delas fala de estilo. «Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real», escreve na segunda, em 1963; e na quinta, já em «Ilhas», recorda que em criança julgava que os poemas «eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio». A fórmula da casa, «dizer o nome exacto das coisas», é uma síntese nossa, não uma frase dela; mas a exactidão é dela, e ela di-lo com outra palavra: «O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos.» Um poema não é um enfeite posto sobre a vida; é a vida a ficar certa.
É aqui que a exactidão vira ética, e é isto que faz de Sophia uma estrela deste céu. No discurso de 1964, ao receber o prémio pelo «Livro Sexto», disse: «Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem.» E logo a seguir: «Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo.» A Grécia que atravessa toda a sua obra não é decoração clássica: é a ideia de que o mundo tem uma medida, de que a justiça é a primeira coisa que se pensa, e de que ver bem obriga. Reintegração, em Sophia, quer dizer isto: o homem, as coisas e o nome das coisas voltarem a caber no mesmo lugar.
A ligação ao Quinto Império faz-se por Camões, e é preciso dizê-lo com exactidão, como ela quereria: não encontrámos em Sophia nenhuma página sobre o Quinto Império nem sobre o sebastianismo, e não a inventamos. O que há é Camões, lido não como glória mas como ferida. Em «Camões e a Tença», divulgado em 1970 e recolhido em «Dual» (1972), o poeta de «Os Lusíadas» vai ao Paço pedir a pensão que lhe devem: «Irás ao Paço. Irás pedir que a tença / Seja paga na data combinada / Este país te mata lentamente». É talvez a página mais límpida que alguém escreveu sobre a distância entre o que Portugal canta de si e o que faz aos seus. Em 1977 foi a Macau falar de Camões, no Dia de Camões, e dessa viagem nasceu «Navegações» (1983), o livro em que a viagem portuguesa deixa de ser expansão e passa a ser encontro: o espanto de descobrir o outro, aquilo que não somos nós. A língua como pátria, nela, não é uma bandeira: é a obrigação de dizer certo.
E a Ilha dos Amores? Sophia não lhe chama assim, mas o mar dela é o mesmo mar: o lugar onde o homem, se for exacto, se reconcilia com as coisas. Pessoa está-lhe perto de outra maneira: na quarta «Arte Poética», em «Dual», ela cita a frase dele, «aconteceu-me um poema», para dizer que também a ela o poema aparece feito, dado, e que a sua tarefa é não o estragar. É essa a lição que deixa a quem sonha um império do Espírito: o Espírito não se anuncia, pratica-se; começa numa palavra certa, numa relação justa com uma pedra, e não pára antes de chegar ao homem. É a forma mais limpa do mito, sem trono nem data, só a exigência. E é essa exigência que ainda nos falta cumprir.
Página em preparação. As citações vêm do sítio da Biblioteca Nacional dedicado a Sophia («Artes Poéticas» II, III e V) e do texto de «Camões e a Tença» na RTP Ensina; a obra está protegida por direitos de autor e por isso citamos poucos versos. Não encontrámos ligação explícita de Sophia ao Quinto Império: a estrela está no céu por Camões e pela exactidão, e o curador deve confirmar essa leitura.
Citações
«Irás ao Paço. Irás pedir que a tença / Seja paga na data combinada / Este país te mata lentamente»
«Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens.»
«Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo.»
«Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.»
Obras
Constelação local
Estas são as estrelas mais próximas de Sophia de Mello Breyner no céu do Quinto Império.