
1886–1951
em revisãoRené Guénon
A Tradição primordial: o Espírito acima de todas as formas.
Quem foi René Guénon? O metafísico francês que, contra o mundo moderno, afirmou a existência de uma Tradição primordial, una debaixo de todas as religiões, e de um centro espiritual escondido que a guarda: foi com essa chave, o «Rei do Mundo», que vários pensadores portugueses do século XX voltaram a ler o Encoberto e o Quinto Império. Nasceu em Blois a 15 de Novembro de 1886. Passou muito novo pelas escolas ocultistas de Paris, onde animou a revista «La Gnose» (1909–1912), para as denunciar depois com uma dureza que nunca perdeu; abraçou o Islão, com o nome de Abdel Wahed Yahia, instalou-se no Cairo em 1930 e aí morreu a 7 de Janeiro de 1951.
Em pouco mais de vinte anos escreveu a obra que ainda hoje se lê como um bloco: «Introduction générale à l'étude des doctrines hindoues» (1921), «Orient et Occident» (1924), «L'Homme et son devenir selon le Vêdânta» e «L'Ésotérisme de Dante» (1925), «Le Roi du Monde» e «La Crise du monde moderne» (1927), «Le Règne de la quantité et les signes des temps» (1945) e «Aperçus sur l'initiation» (1946). A tese é sempre a mesma, dita de ângulos diferentes: «Le véritable esprit traditionnel, de quelque forme qu'il se revête, est partout et toujours le même au fond» (o verdadeiro espírito tradicional, seja qual for a forma de que se reveste, é em toda a parte e sempre o mesmo no fundo), escreve na «Crise»; as formas, hindu, islâmica ou cristã, «ne sont que des expressions d'une seule et même vérité» (não são senão expressões de uma única e mesma verdade). O Espírito está acima de todas as formas; e a civilização moderna, que trocou o conhecimento dos princípios pela conta da quantidade, é para ele uma anomalia da história, não o seu fim.
O livro que importa a esta constelação é o mais curto e o mais estranho. «Le Roi du Monde» parte de dois relatos que Guénon nem sequer garante: a «Mission de l'Inde» de Saint-Yves d'Alveydre, publicada em 1910, e o «Bêtes, Hommes et Dieux» de Ferdynand Ossendowski, ambos a falar de um reino subterrâneo, o Agarttha, e de um chefe que é ao mesmo tempo rei e sacerdote. Guénon não se detém no exotismo: lê neles a memória, deformada, de uma verdade que encontra em todas as tradições, e conclui que «il existe une « Terre Sainte » par excellence, prototype de toutes les autres « Terres Saintes », centre spirituel auquel tous les autres centres sont subordonnés» (existe uma «Terra Santa» por excelência, protótipo de todas as outras, centro espiritual ao qual todos os outros centros estão subordinados). Esse centro está hoje escondido, não perdido; o Graal, o reino do Preste João e os Templários são reflexos dele; e a Europa, diz Guénon, cortou há séculos o fio consciente que a ligava a esse centro.
Guénon nunca escreveu uma linha sobre Portugal: está nesta constelação pelo que fizeram dele os que o leram cá. A gramática do «Rei do Mundo» (um centro oculto, um rei que é também sacerdote, um reino que espera a hora de sair da terra) coincidia de tal maneira com a do Encoberto que a apropriação foi quase natural. Lima de Freitas cita expressamente, em «515 – O Lugar do Espelho», «o Reino do Preste João, o Rei do Mundo que guarda, na sua capela palatina, o Santo Vaso sagrado desaparecido», e faz dele uma das linhas melódicas do Império do Espírito Santo no imaginário português. Yvette Centeno, a ler o D. Sebastião de Pessoa, escreve que dele se pode dizer «o que René Guénon disse do Rei do Mundo: é Rei, Sacerdote e Profeta». Dalila Pereira da Costa, em «A Nau e o Graal» (1978), António Quadros, em «Portugal, Razão e Mistério», e Manuel J. Gandra, no seu inventário do mito, movem-se no mesmo terreno: Templários, Graal, centro, Espírito Santo. As traduções portuguesas («A Crise do Mundo Moderno» na Vega, «O Rei do Mundo» nas Edições 70) chegaram a tempo de alimentar essa leitura.
Há ainda um fio mais fino. Em «L'Ésotérisme de Dante», Guénon parou no enigma do «cinquecento diece e cinque», o 515 do «Purgatório», e recusou ver nele um homem concreto: «pour nous, il s'agit seulement d'un des aspects de la conception générale que Dante se fait de l'Empire» (para nós, trata-se apenas de um dos aspectos da concepção geral que Dante faz do Império). Bastava trocar a ordem das letras, DXV em DVX, para ler «Dux», o guia. Foi esse número, lido como cifra do Império do Espírito, que Lima de Freitas pôs no título do seu livro e procurou nas pinturas e nas pedras de Portugal: a estrela de Guénon e a de Lima de Freitas iluminam-se uma à outra.
Convém não pedir a Guénon o que ele não dá. O seu Império é o de Dante e o dos hindus, um monarca universal que faz reinar a paz; a sua elite é «peu nombreuse», e o seu tom, para com o mundo moderno, é de condenação sem apelo. A casa fica-lhe com uma coisa apenas, mas essa é grande: a ideia de que acima de todas as formas há um Espírito que as atravessa, e de que o centro não se perdeu, só se escondeu. «Tout doit commencer par la connaissance» (tudo tem de começar pelo conhecimento), escreve ele a fechar a «Crise». Lida daqui, a frase deixa de ser um aviso e passa a ser um convite: a Era do Espírito Santo não é uma coisa a esperar, é um centro a procurar, e a procura começa por saber o que se procura. É isso que ainda nos falta cumprir.
Página em preparação. Guénon não escreveu sobre Portugal: a sua presença nesta constelação assenta na recepção portuguesa (Lima de Freitas, Yvette Centeno, Dalila Pereira da Costa, António Quadros, Manuel J. Gandra), que o curador deve validar. As citações em francês foram verificadas no texto original (Wikisource e «Œuvre de René Guénon»).
Citações
«Le véritable esprit traditionnel, de quelque forme qu'il se revête, est partout et toujours le même au fond ; les formes diverses, qui sont spécialement adaptées à telles ou telles conditions mentales, à telles ou telles circonstances de temps et de lieu, ne sont que des expressions d'une seule et même vérité ; mais il faut pouvoir se placer dans l'ordre de l'intellectualité pure pour découvrir cette unité fondamentale sous leur apparente multiplicité.»
«Du témoignage concordant de toutes les traditions, une conclusion se dégage très nettement : c'est l'affirmation qu'il existe une « Terre Sainte » par excellence, prototype de toutes les autres « Terres Saintes », centre spirituel auquel tous les autres centres sont subordonnés.»
«Comme nous l'avons déjà répété bien souvent, tout doit commencer par la connaissance ; et ce qui semble être le plus éloigné de l'ordre pratique se trouve être pourtant le plus efficace dans cet ordre même, car c'est ce sans quoi, là aussi bien que partout ailleurs, il est impossible de rien accomplir qui soit réellement valable, qui soit autre chose qu'une agitation vaine et superficielle.»
«Nous n'avons pas l'intention de discuter ici la signification du Veltro, mais nous ne croyons pas qu'il faille y voir une allusion à un personnage déterminé ; pour nous, il s'agit seulement d'un des aspects de la conception générale que Dante se fait de l'Empire.»
Constelação local
Estas são as estrelas mais próximas de René Guénon no céu do Quinto Império.