
1927–1998
em revisãoLima de Freitas
Pintou o mito: «515 – O Lugar do Espelho».
Quem foi Lima de Freitas? O pintor que deu imagem ao Quinto Império: leu o 515 de Dante como cifra do Império do Espírito Santo, procurou-o nas pinturas e nas pedras de Portugal e pintou-o em telas onde o Paracleto, o Preste João e o Encoberto são a mesma luz. José Lima de Freitas nasceu em Setúbal a 22 de Junho de 1927 e morreu em Lisboa a 5 de Outubro de 1998. Estudou na Escola de Belas-Artes de Lisboa, aderiu ao neo-realismo em 1946, viveu em Paris entre 1954 e 1959 e ilustrou mais de uma centena de livros, do «Dom Quixote» na tradução de Aquilino Ribeiro a «Os Lusíadas» e a Pessoa. Ensinou no IADE, presidiu à comissão instaladora do Teatro Nacional D. Maria II, reaberto em 1978, e deixou nas paredes da estação do Rossio, em 1995–1996, os painéis de azulejo sobre os mitos e figuras lendárias de Lisboa.
A sua pintura tem três idades: a neo-realista, a surrealista e expressionista e, a partir dos anos 70, a que a crítica chama realismo fantástico. A partir de 1987 pintou as telas inteiramente dedicadas ao mito português, «Depois de Morta foi Rainha», «O Preste João», «O Paracleto», «O Encoberto», e Gilbert Durand, o antropólogo do imaginário que foi seu amigo, deu-lhes um nome: «Mitolusismos». Não era nostalgia de glória, e ele tinha o cuidado de o dizer: o homem tem direito a uma nacionalidade, mas a sua pátria é a Terra, e o mito, se serve para alguma coisa, serve para ligar, não para fechar.
O número que o ocupou a vida inteira vem do «Purgatório» de Dante: «un cinquecento diece e cinque, messo di Dio», que Beatriz anuncia no canto XXXIII. Em algarismos romanos, DXV; trocadas as letras, DVX, o guia. Guénon, em «L'Ésotérisme de Dante» (1925), já tinha recusado ver nele um homem concreto e lera-o como um dos aspectos da ideia que Dante faz do Império. Lima de Freitas foi mais longe: para ele o 515 é a imagem de um salvador que instauraria um império universal de justiça, o equivalente do Império do Espírito Santo ou Quinto Império que tanto ocupou o imaginário português. E é um número-espelho, uma capicua: o 5 do homem de cada lado, o 1 de Deus ao centro. Foi vê-lo por todo o lado: nos painéis atribuídos a Nuno Gonçalves, onde a figura central é rodeada por cinco personagens de cada lado; no pórtico do Convento de Cristo, em Tomar; nos bancos da Quinta da Regaleira, em Sintra, onde um 515 esculpido responde a um 666. Daí o livro: «515, le lieu du miroir» saiu em Paris, na Albin Michel, em 1993, e a edição portuguesa, «515 – O Lugar do Espelho», com prefácio de Durand, só em 2003, a título póstumo.
O que ele lê nesse espelho é uma história portuguesa de que a história oficial não se lembra. Em «515» descreve o Império do Espírito Santo no imaginário português como um tecido em que se cruzam várias linhas melódicas: «Por um lado, temos um reino na extremidade do Ocidente, todo impregnado dos ideais templários.» A demanda do Graal, «a busca do longínquo e portentoso Reino do Preste João, o Rei do Mundo que guarda, na sua capela palatina, o Santo Vaso sagrado desaparecido»; e, do outro lado, D. Dinis, que salvou os Templários na Ordem de Cristo e decretou o culto do Espírito Santo com a rainha Isabel. É a linha que vem de Joaquim de Fiore, passa por Vieira e chega ao século XX, agora com uma geografia: Tomar, Sintra, a Arrábida, os lugares onde o mito deixou pedra. Lima de Freitas leu Guénon, e Guénon está por trás do vocabulário (o Rei do Mundo, o centro escondido, os Templários como guardiões), mas o pintor faz o que o metafísico nunca fez: dá-lhe um país e dá-lhe imagem.
Por baixo de tudo está uma teoria do símbolo que ele escreveu em 1971, em «A Voz Visível». O símbolo, diz, é um «quantum» de energia «que garante à imagem a velocidade necessária para escapar à queda na “actualidade” onde se desfaz: porta secreta que conduz ao universal». Por isso, nos últimos anos, se entregou ao que se chamou transdisciplinaridade: foi membro fundador do CIRET, em Paris, integrou a partir de 1992 a comissão consultiva da UNESCO para a matéria, presidiu à comissão que organizou o primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, no Convento da Arrábida, em Novembro de 1994, e assinou com Edgar Morin e Basarab Nicolescu a Carta da Transdisciplinaridade que dele saiu. Não é um desvio: é a mesma ideia, a de vários níveis de realidade que nenhum saber esgota.
Andou sempre acompanhado. António Quadros, o grande amigo, pôs em sistema, em «Portugal, Razão e Mistério», o que ele punha em tela; Dalila Pereira da Costa, de quem foi muito amigo, leu a mesma mística por dentro; e com Agostinho da Silva partilhou a convicção de que o culto popular do Espírito Santo é o mito na sua forma viva, tema que estudou em ensaios como «O Culto do Espírito Santo e o Imaginário Lusitano». A Era do Espírito Santo, nele, não é uma data: é um lugar do espelho, o ponto em que o que se vê e o que se é coincidem, e o Encoberto não é um rei que volta, é uma luz que se pinta. «Cada poeta, cada nação, cada novo sentir terá de traduzir o mito para a inteligência do seu tempo», escreveu. Foi o que fez, com tinta. A tradução para o nosso tempo é a parte que ainda nos falta cumprir.
Página em preparação. Datas e bibliografia verificadas (Wikipédia, «Gerações Hispânicas» da FCSH, artigos académicos de Teresa Lousa e de Celina Silva); as citações de «A Voz Visível» e de «515» vêm dessas transcrições académicas, com página, e devem ser conferidas no livro pelo curador. A relação directa com Agostinho da Silva não está documentada nas fontes consultadas; a amizade com António Quadros e com Dalila Pereira da Costa está.
Citações
«O símbolo é como um «quantum» de energia que garante à imagem a velocidade necessária para escapar à queda na «actualidade» onde se desfaz: porta secreta que conduz ao universal, via da arte simultaneamente a mais hermética e a mais comunicativa; e isto porque a forma que significa constantemente outra coisa é, paradoxalmente, aquela que mais se significa.»
«Por um lado, temos um reino na extremidade do Ocidente, todo impregnado dos ideais templários.»
Constelação local
Estas são as estrelas mais próximas de Lima de Freitas no céu do Quinto Império.